Ano 13 (2026) – Número 1 Artigos
Located along the Brazil–Bolivia border, a territory contested by the Portuguese and Spanish crowns in the eighteenth century, the Real Forte Príncipe da Beira (RFPB) was constructed as a strategic military stronghold. The monument was built almost entirely from blocks of lateritic crust extracted from the upper horizons of a mature lateritic profile and carefully shaped using ashlar masonry techniques. In addition to this fortification, other historical structures are integrated into the natural landscape, conferring upon the site distinctive historical, cultural, geological, and anthropological significance. These include the former Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição (also known as Bragança), an external powder magazine, a kiln, and a more distant site known as the “Labirinto”, considered a possible primary source of raw materials for the construction of the RFPB and the subject of various theories and speculations regarding its origin and function. Based on this site, the present study examines its characteristics under the hypothesis that it functioned as a mining settlement, consistent with the construction materials identified in the military fortification. This interpretation is further supported through comparison with a similar structure identified along the banks of the Rio Pedreira, considered a possible source of raw materials for the construction of the Fortaleza de São José de Macapá in Amapá (Brazil).
Keywords: Lateritic crusts; Fortifications; Amazon.
Na fronteira do Brasil com a Bolívia, território disputado pelas coroas portuguesa e espanhola no século XVIII ergueu-se o Real Forte Príncipe da Beira (RFPB), monumento construído quase inteiramente em blocos de crostas lateríticas extraídas de topo de perfil laterítico maturo e trabalhadas em cantaria. Além desta fortificação outras estruturas históricas aliam-se à paisagem natural imprimindo ao local, qualidades especiais com atributos histórico, cultural, geológico e antropológico, tais como a anterior Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição ou de Bragança, o paiol externo, o forno e um local mais distante denominado de Labirinto, possível fonte de maior procedência de matéria prima para a construção do RFPB, alvo de diversas teorias e especulações quanto à sua origem e função. A partir deste sítio, este artigo aborda as características do local com a hipótese de se tratar de uma vila-mina em consonância aos materiais construtivos identificados na fortificação militar e em comparação à estrutura similar identificada às margens do Rio Pedreira, possível vila-mina que forneceu matéria prima para a construção da Fortaleza de São José de Macapá (AP).
Palavras-chave: Crostas lateríticas; Fortificação; Amazônia.
A delimitação da Amazônia ocidental na fronteira do Brasil com a Bolívia é marcada pela implantação de fortificações militares como a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição posteriormente de Bragança e o Real Forte Príncipe da Beira em Costa Marques, Rondônia, às margens do rio Guaporé. Na vila está instalado o 1º Pelotão Especial de Fronteira que entre outras atividades cuida do Forte, com carpinas, limpeza e abertura do espaço aos visitantes.
Erguidas para proteger as terras das missões espanholas do Reino do Peru, a primeira teve suas obras iniciadas em 26 de setembro de 1767 seguindo até 1769 e viria a substituir o velho fortim de Nossa Senhora da Conceição, construído em 1760, enquanto a segunda, o Real Forte Príncipe da Beira, como uma das maiores fortificações portuguesas do século XVIII na Amazônia, foi erigida entre 1776 e 1783 (Ferreira 1970, Nunes 1985, Ferreira, 2004).
Os antecedentes apontam para a viagem de Luís de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, ao longo do rio Guaporé ao término de 1773 e no ano de 1774, de fevereiro a março, no curso do rio Madeira para estudar nova localização para uma fortaleza, visto a preocupação com a segurança da fronteira às investidas dos espanhóis pelo Peru, sem proteção maior que a Fortaleza de Bragança, derruída pela enchente de 1771(Nunes 1985).
O Real Forte Príncipe da Beira (Figura 1) configura-se como das mais impressionantes obras militares na região, com apurado trabalho de cantaria e entalhes desenvolvidos em blocos espessos de crostas lateríticas provenientes do entorno geológico do próprio terreno de implantação e áreas próximas.
Figura 1 – (A) “Plano do Forte do Príncipe da Beira em que se reprezentao as suas Obras feitas lhe Outubro de 1798. E as que se achao por fazer segundo o seu Progeeto e fundação em 2º de Junho de 1776”. (B) Imagem de satélite do RFPB (Fonte: Nunes, 1985; Google Earth, 2023).
Uma série de estruturas históricas integra este sítio, para além das fortificações, destacando-se o forno, o paiol externo e o local denominado Labirinto (Norat 2017, Barcelos 2018, Albuquerque e Albuquerque 2020) (Figura 2).
Figura 2 – Mapa com a localização do sítio do Real Forte Principe da Beira e das estruturas históricas nos arredores: o Forte Conceição ou Bragança; o Paiol externo; o Forno e o Labirinto, com algumas de suas estruturas mapeadas na floresta. Fonte: Imagem de satélite do Google Earth (2023), com adaptação gráfica.
Dentre essas estruturas, esta última é envolta por diferentes hipóteses e interpretações especulativas que, ao longo do tempo, têm contribuído para a permanência de incertezas e mistérios quanto à sua origem e função.
A visita ao Real Forte Príncipe da Beira frequentemente suscita o interesse pela busca do Labirinto, o qual consiste em uma estrutura composta por pedras empilhadas que conformam caminhos no interior da floresta. Esses caminhos organizam-se em compartimentos distribuídos segundo uma lógica ainda não plenamente compreendida, articulados por muros e passagens que evocam a configuração de um labirinto pétreo.
Segundo Barcelos (2018), o Labirinto pode ser descrito como um conjunto de muros formados por pedras de pequenas dimensões que, articuladas entre si, delineiam caminhos curvos em meio à floresta. Essa estrutura estende-se por aproximadamente “2 a 3 km em cada lado da estrada”, sendo o trecho mais visitado aquele localizado nas proximidades do rio Guaporé. Em seus estudos, o autor registra mais de sessenta pontos de referência ao longo do Labirinto. Barcelos também destaca o uso da área para treinamentos de sobrevivência na selva por militares, evidenciando sua reapropriação contemporânea.
Pesquisadores e interessados provenientes de diversas partes têm formulado distintas interpretações acerca do Labirinto. Entre elas, destaca-se a hipótese de que se trate de uma estrutura construída por povos incas, associada ao registro da mítica cidade de Paititi (A Fotorm, 2012; Barcelos, 2018). Outra vertente interpretativa sugere que tais estruturas estariam relacionadas a uma missão espanhola, identificada como a antiga Missão de Santa Rosa Velha (Meireles, 1989; Barroso, 2015; Barcelos, 2018; Albuquerque e Albuquerque, 2020), indicando a coexistência de leituras que oscilam entre matrizes andinas e coloniais.
Albuquerque e Albuquerque (2020) descrevem o Labirinto como um conjunto de “muros de pedras” com altura que excede 2,5m, muitas vezes em paralelo, formando extenso corredor e indicam não apontar para uma forma prática de “bota e tira” para serem transportadas, com disposição “praticamente vertical, diria mesmo à prumo” e sugerem se tratar de uma construção, assemelhando-se às “cercas de pedra” comuns no Nordeste, em contraponto à hipótese de Norat e Costa (2019, 2021).
Estudos recentes, desenvolvidos no âmbito do projeto Amazônia Revelada, utilizam a tecnologia LiDAR (sistema de sensoriamento remoto baseado na emissão de feixes de laser em sobrevoos) para analisar diferentes áreas da região amazônica, incluindo o sítio associado à cidade de Lamego (O Globo, 2024).
De acordo com o arqueólogo Carlos Augusto Zimpel, da Universidade Federal de Rondônia, essa cidade e a vila adjacente, datadas do século XVIII e habitadas por portugueses, indígenas escravizados e africanos, desempenhavam papel estratégico no abastecimento da fortificação militar e de Vila Bela da Santíssima Trindade, primeira capital da província de Mato Grosso. No local, foram identificados vestígios materiais em quantidade superior à previamente estimada, como telhas e blocos de pedra, indicando a existência de um assentamento de maior dimensão do que o registrado nos mapas históricos (O Globo, 2024).
A cerca de 8 km entre Lamego e a Vila de Bragança, observaram-se traçados de ruas, além de evidências de oficinas e habitações. Também foram identificados geoglifos, sendo um quadrangular e outro circular, possivelmente anteriores à presença europeia na região. No que se refere ao Labirinto, esses estudos apontam cerca de vinte estruturas de pedra, interpretadas como possíveis elementos associados a uma guarda militar portuguesa (O Globo, 2024).
A Figura 3 apresenta uma planta do século XVIII com os territórios do Governo e Capitania General do Matto Grosso e Cuiabá e a fronteira com as províncias de Chiquitos e de Mojos, onde se distinguem os domínios espanhol e português, tendo a localização do RFPB e Lamego.
Figura 3 – (A) “Ideia geographica dos territorios portuguezes que comprehende o Governo e Capitania General do Matto Grosso e Cuiabá. Confinantes as Provincias Castelhanas de Chiquitos e de Mojos” (178?). (B) Pormenor do mapa em que se destaca a localização do RFPB e Lamego (Fonte: http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_cartografia/cart520418/cart520418.jpg).
A expressiva dimensão simbólica da presença monumental do Real Forte Príncipe da Beira e as demais estruturas históricas que perderam a relação de uso e continuidade, associam-se às relações humanas e às memórias ali construídas ao longo do tempo.
Essas experiências manifestam-se por meio de inscrições, relatos e registros poéticos gravados em suas paredes, constituindo vestígios sensíveis da presença humana. Tais evidências são incorporadas neste estudo, ampliando o escopo da abordagem antropológica que fundamenta a interpretação de lendas e narrativas frequentemente entrelaçadas no imaginário coletivo.
Nesse contexto, diferentes fontes de natureza científica, institucional, jornalística e de divulgação têm reiterado tanto a relevância histórica do sítio quanto a multiplicidade de interpretações acerca das estruturas e ocupações na região amazônica.
Tais interpretações evidenciam a permanência desses vestígios no debate contemporâneo, sendo o Labirinto ora associado a um posto de observação, ora a uma área de extração de matéria-prima, estrutura de vigilância militar ou mesmo a um assentamento vinculado a tradições andinas, recebendo denominações diversas como Labirinto da Bahia ou Labirinto da Bahia Redonda (Rondônia (Estado), 2016; Portal Amazônia, 2022; O Globo, 2024).
Diante da diversidade e, por vezes, da discrepância dessas hipóteses, este artigo tem como objetivo contribuir para a interpretação desse sítio a partir de análises realizadas in loco, em articulação com dados históricos e estudos comparativos com uma estrutura similar localizada na Amazônia Oriental, às margens do Rio Pedreira, associada como possível fonte de matéria-prima para a construção da Fortaleza de São José de Macapá, obra iniciada em 1764 e concluída em 1782 (Norat e Costa 2019, 2021).
Entre as relações simbólicas associadas ao Forte, destacam-se registros deixados por personagens anônimos nas paredes das celas. Um desses testemunhos refere-se à menção de um terremoto, descrito na inscrição: “No dia 18 de set., pelas 2 da tarde, tremeo a terra, 1852”, assinado por “Juvino”, possivelmente uma pessoa encarcerada, que também registra versos que expressam o sofrimento do cativeiro, como: “A Deus ingrata prisão, De ti me despesso obriozo (…) Em ti a mais dura aflição”.
Outro personagem emblemático, embora igualmente pouco identificado, é Pacheco, prisioneiro que deixou registrado, em grafia de época, um conjunto de versos de caráter confessional e poético, nos quais expressa sua condição de cativo, o sofrimento do encarceramento e a ambivalência entre a dor da prisão e a gratidão por gestos de solidariedade recebidos.
Nesta triste e Horrorosa prisão
Vive o pobre e Enfeliz Pacheco
Com groça e comprida corrente ao pescoço.
Mato Groço me prendeo
A Fortaleza me cativou
Preso e cativo estou
De quem tanto me favoreceo
Grande satisfação tevi
Quando em liberdade
Agradecer a boa vontade
Com que alguns senhores
Me fazem seus favores
Nesta minha advercidade
Neste desterro desgraçado
Em que a çorte me lançou
muito agradecido estou
a tropa e o povo honrado
agradecido e obrigado
as esmolas que me teem feito
Capitão Cunha em meu peito
o teu nome tenho gravado
e nele conservado
ca ahonde do Brasil
o reino principia
provincia de Mato Groço
assim chamada
nesta abobada imunda inabitada
noite e dia
com groça e comprida
corrente fria
tem seu colar
no pescoço pendurada
com dois mantos
escolhidos e emprestados
pelos maiores
quena terra havia”
(SkyscraperCity, 2004)
A descrição do espaço prisional, caracterizado como um ambiente opressivo e insalubre, evidencia-se na referência à “abóbada imunda inabitada”, expressão que remete a um espaço fechado, claustrofóbico e deteriorado. A indicação temporal “noite e dia” sugere a permanência contínua do sofrimento, enquanto a menção à “grossa e comprida corrente fria” acentua a condição de aprisionamento, privação e punição corporal. Nesse conjunto, constrói-se uma atmosfera marcada pela escuridão, pela umidade e pela desumanização do sujeito aprisionado.
Esses registros, dotados de significativa carga emocional, constituem vestígios relevantes das experiências humanas vivenciadas no interior da fortificação, contribuindo para a compreensão de suas dimensões simbólicas e sociais e para a construção de narrativas históricas e do imaginário coletivo.
Se, por um lado, as inscrições carcerárias revelam as dimensões humanas, simbólicas e experienciadas do Real Forte Príncipe da Beira, por outro, a compreensão de sua materialidade construtiva remete à investigação das fontes de obtenção de seus insumos.
Nesse sentido, a análise desloca-se do espaço intramuros, marcado por narrativas de sofrimento, memória e expressão, para a paisagem circundante, onde se inscrevem os vestígios das práticas extrativas que possibilitaram a edificação do monumento.
É nesse contexto que o Labirinto, situado nas proximidades do Rio Guaporé, emerge como elemento-chave para a compreensão das dinâmicas produtivas e territoriais associadas ao Forte, articulando memória oral, evidências materiais e hipóteses interpretativas sobre sua função enquanto possível área de extração de matéria-prima.
A memória oral aponta o Labirinto como possível fonte de matéria prima para a construção do Real Forte Príncipe da Beira. O local corresponde a um complexo de várias estruturas enfileiradas com blocos de rochas aparelhadas indicativas de área de extração de material construtivo (Marques 2008).
O acesso se dá por meio da estrada de terra que conecta a sede do município de Costa Marques à vila do Forte Príncipe, aproximadamente 4,6 km após a denominada “Curva do 68”, nas coordenadas 12°25’36″S e 64°23’21″W (Norat 2017) (Figura 2).
Embora se admita o aproveitamento das rochas resultantes do recorte do perfil laterítico para a escavação e conformação do fosso seco do RFPB, tais recursos não seriam suficientes para atender à escala construtiva do monumento, o que torna plausível a necessidade de exploração de fontes adicionais de matéria-prima em áreas adjacentes.
Além das rochas, a ocorrência de solos de coloração amarelo-alaranjada sugere sua utilização na composição das argamassas empregadas na edificação. Tal uso confere à estrutura tonalidades alaranjadas, que se associam às crostas lateríticas, ricas em óxidos e hidróxidos de ferro, como goethita e hematita. Essa conjunção de propriedades ao refletirem a luz solar, conferem ao Forte um aspecto dourado, especialmente no poente.
Durante a visita ao Labirinto, a presença atenta e entusiasmada de Elvis Cayaduro Pessoa, nascido em 22/05/1977 e falecido em 24/04/2023, líder da Comunidade Quilombola Forte Príncipe da Beira e presidente da ASQUIFORTE, foi fundamental para o enriquecimento da experiência de campo, especialmente por meio das vivências e memórias por ele compartilhadas.
Reconhecido como um guardião da fortificação, destacava-se pelo engajamento na condução de pesquisadores, turistas e demais interessados em conhecer os diversos espaços naturais e construídos da localidade e de seu entorno. Detentor de amplo conhecimento sobre as narrativas que permeiam o sítio, demonstrava escuta atenta às indagações e interpretações dos visitantes, ao mesmo tempo em que contribuía com suas próprias percepções e reflexões acerca do lugar e de suas possíveis leituras.
Apesar das diferentes hipóteses acerca da natureza do Labirinto, a interpretação que o caracteriza como uma vila-mina destinada ao fornecimento de pedra para a construção do Real Forte Príncipe da Beira e de suas estruturas associadas, como o paiol e o forno, fundamenta-se em um conjunto expressivo de evidências observadas in loco.
Dentre elas, destacam-se a proximidade entre as áreas de extração de matéria-prima e o local de implantação do monumento, bem como a presença de pilhas de blocos rochosos dispostas em diferentes frentes organizadas (Figura 4 A), conformando caminhos que, embora atualmente encobertos pela vegetação, sugerem a existência pretérita de uma dinâmica área de extração.
Outra evidência relevante consiste na identificação de pontos claramente associados à atividade extrativa nos barrancos dos perfis lateríticos, onde se observam marcas de recorte e sinais de extração (Figura 4 C).
Soma-se a isso a presença de remanescentes de uma estrutura edificada em blocos de pedra, com vão de acesso central e dimensões internas aproximadas de 4,80 x 5,80 m, cujas paredes apresentam espessura em torno de 0,50 m (Norat 2017), reforçando a interpretação do sítio como espaço articulado que continha alguma base de apoio aos trabalhadores (Figura 4 B).
A construção do RFPB estendeu-se por sete anos enquanto a FSJM por dezoito anos o que, por si só, implicaria a necessidade de alguma estrutura de acampamento e vigilância, não sendo tais usos excludentes nos sítios de extração associados a uma vila-mina.
Figura 4 – (A) Pilhas de blocos lateríticos não argamassados extraídos e empilhados em vários circuitos na mata no local chamado de Labirinto. (B) Ruínas de possível estrutura de acampamento na mata em alvenaria de pedra com argamassa de solo. (C) Recorte no barranco do perfil laterítico com sinais de extração da matéria prima.
A análise da composição das muralhas do Real Forte Príncipe da Beira revela, de modo geral, a presença de 17 fiadas de blocos pétreos, com altura média de aproximadamente 32 cm. Observa-se variação nas dimensões de largura desses blocos, especialmente na conformação das saias das cortinas, delimitadas superiormente pela linha do cordão, também executada em crostas lateríticas, com cortes de tipologia mista, caracterizados por extremidades retas e bojo central arredondado (Norat 2017, Norat e Costa 2021).
Acima desse conjunto, a mureta apresenta quatro fiadas adicionais de blocos regulares dispostos em sistema contrafiado, evidenciando um padrão construtivo cuidadoso e tecnicamente orientado (Figura 5).
Figura 5 – Muralha da face norte do Baluarte de Santo Antônio de Pádua onde se observam as linhas claras de blocos contrafiados de crostas lateríticas em 17 fiadas (as da base parcialmente encobertas pela vegetação e solo), interceptada pela linha do cordão seguida de mureta com 4 fiadas, com dimensões variadas e altura regular com cerca de 32cm.
Foram identificados dois grupos de crostas lateríticas aplicadas na construção do Real Forte Príncipe da Beira. O primeiro é constituído por blocos provenientes de camadas mais próximas ao horizonte mosqueado, os quais apresentam maior suscetibilidade ao intemperismo. O segundo grupo corresponde a blocos extraídos de níveis mais próximos ao topo do perfil laterítico, caracterizando-se por maior resistência às alterações intempéricas (Figura 6).
Figura 6 – (A) Face do baluarte de Santo Antônio de Pádua onde são facilmente identificáveis os blocos de crostas lateríticas provenientes tanto do topo do perfil correspondendo a blocos de crostas maciças e mais resistentes, quanto de áreas mais próximas do mosqueado, estas mais suscetíveis ao intemperismo. (B) Detalhe de blocos de crostas maciços em contraste com outros mais cavernosos e próximos do mosqueado.
A hipótese de que o Labirinto corresponda a uma vila-mina destinada à extração e ao fornecimento de blocos pétreos para a lavra e posterior utilização nas muralhas da fortaleza e em suas estruturas componentes e auxiliares é corroborada pela identificação de uma estrutura análoga no Rio Pedreira, reconhecida como fonte de matéria-prima para a construção da Fortaleza de São José de Macapá (Norat e Costa 2019, 2021).
Ambos os sítios configuram complexos caracterizados pela presença de pilhas de blocos de pedra aparelhados e não argamassadas, dispostas em múltiplas frentes organizadas, por vezes em paralelo, formando caminhos.
Além da proximidade entre as áreas de extração e os locais de implantação dos monumentos, foram identificadas evidências in situ que reforçam essa interpretação, como os recortes em lajes de arenito ferruginizado no Rio Pedreira (AP) e as marcas de extração e entalhe nos barrancos dos perfis lateríticos às margens do Rio Guaporé (RO).
A convergência entre evidências materiais, dados históricos e observações in loco permite interpretar o Labirinto, nas proximidades do Rio Guaporé, como uma vila-mina voltada à extração e ao fornecimento de matéria-prima para a construção do Real Forte Príncipe da Beira e de suas estruturas auxiliares.
A disposição organizada dos blocos pétreos, o assentamento dos blocos sem o uso de argamassa, as marcas de extração nos perfis lateríticos e a semelhança com a estrutura identificada no Rio Pedreira, associada à Fortaleza de São José de Macapá, reforçam essa hipótese. Assim, o Labirinto pode ser compreendido não como uma estrutura enigmática isolada, mas como parte integrante da lógica construtiva e territorial associada ao Forte.
Nesse sentido, o estudo contribui para ampliar a compreensão das estratégias de obtenção de materiais e das práticas construtivas associadas ao Forte, ao mesmo tempo em que evidencia a importância da articulação entre evidências arqueológicas, geológicas, históricas e memória local para a interpretação desses complexos na paisagem amazônica.
Contudo, tais hipóteses ainda demandam aprofundamento por meio de pesquisas arqueológicas sistemáticas, associadas à documentação histórica e iconográfica e à análise das técnicas e dos materiais construtivos, de modo a permitir uma avaliação mais precisa acerca da natureza dos “Labirintos”, seja o do rio Pedreira, seja o do Guaporé.
Os autores agradecem ao Exército Brasileiro, em especial à 17ª Brigada de Infantaria de Selva e ao 1º Pelotão Especial de Fronteira, pelo apoio institucional. Agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo financiamento concedido por meio dos Projetos nº 420095/2013-6 e nº 409992/2023-2 (Edital Universal), bem como pela concessão de bolsa de produtividade em pesquisa ao pesquisador Marcondes Lima da Costa (Processo nº 304.967/2022-0). Agradem a Alessandro Sabá Leite pela elaboração e tratamento gráfico da figura a partir de imagem de satélite. Registram um agradecimento especial, in memoriam, ao Sr. Elvis Pessoa, que atuou como guia na expedição realizada em 28 de dezembro de 2015, contribuindo significativamente com seu conhecimento e vivência sobre a região.
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