A Gemologia no Palco do Natal Açoriano: A Azores Gems and Minerals no Centro da Expo Açores 2025: Uma Estreia

Ano 13 (2026) – Número 1 Notícias

por

Susana Horta

Azores Gems and Minerals, São Miguel, Açores, Portugal.

A Expo Açores Artesanato 2025, na sua edição natalícia, foi, como sempre, uma cornucópia de criatividade insular. O pavilhão mantinha um pulsar constante, ainda que o fervor fosse mais contido do que em anos anteriores, reflexo da dispersão de outras festividades que ocorriam em simultâneo pela ilha.

 

Figura 1 – Stand da Azores Gems and Minerals na Expo Açores Artesanato 2025, São Miguel Açores, Portugal.

 

Figura 2 – A decoração do stand foi a nossa homenagem à época com um presépio que nasceu da própria rocha, esculpido na textura única da escória vulcânica (imagem A); Caixas com pedras para colecção (imagem B); fragmentos de rochas, obsidiana e escória vulcânica (imagem C); quadro alusivo à época com o Menino Jesus rodeado pelo brilho das nossas bijuterias (imagem D); expositor com bijuterias (imagem E). No stand da Azores Gems and Minerals, a vulcanologia e a tradição de Natal caminharam juntas, provando que a beleza está na essência da nossa terra. 

 

 

Figura 3 – Símbolo do artesanato dos Açores, Portugal.

 

A alegria da época, contudo, marcava presença nos cânticos natalícios que embalavam as escolhas de quem nos visitava e nas atividades dedicadas às crianças no decorrer dos cinco dias. O ritmo contagiante do folclore, esse, foi o brilho especial do dia da abertura, servindo de anfitrião a um evento que, para nós, expositores, é a montra viva da diversidade açoriana.

O arquipélago estava ali representado em toda a sua autenticidade, desde a doçura dos licores, do mel,  e dos biscoitos regionais à espiritualidade dos terços em basalto e das “lágrimas-de-nossa-senhora” (especie de milho). Sentia-se a alma das bonecas de trapos e a nostalgia dos registos do Senhor Santo Cristo dos Milagres (Os Registos do Senhor Santo Cristo dos Milagres são uma das manifestações mais delicadas e profundas do artesanato religioso e da devoção popular na ilha de São Miguel, nos Açores. Mais do que simples objetos decorativos, estes registos são pequenos “altares de bolso” ou de parede que levam a proteção da imagem do “Ecce Homo” para dentro das casas dos açorianos e da diáspora. A estampa é emoldurada por trabalhos minuciosos em flores de papel, escamas de peixe, fios de ouro ou prata, e missangas).

Havia também arte de ponta, onde matérias-primas genuinamente açorianas ganhavam uma nova vida. Falo do basalto, a nossa pedra negra, e da criptoméria, a madeira que desenha as nossas paisagens, ambos, quando aplicados à bijuteria arquitetónica ou a candeeiros de design, elevam o artesanato a um patamar de luxo identitário. A este cenário juntava-se ainda a raridade das peças em osso de baleia, o trabalhado em escama de peixe, o vidro decorativo e as malas artesanais, testemunhos de uma herança transformada em arte delicada.

 

 

Figura 4 – O Coração do Arquipélago na Expo: uma viagem pelas ilhas sem sair do mesmo espaço. A criatividade de São Miguel (imagens A e C) cruza-se com a delicadeza das Flores (imagem B), à força da terra do Pico (imagem D) e à alma náutica do Faial (imagem E). Na imagem F, a visão geral dos stands revela o mosaico de talentos que transformou o pavilhão num verdadeiro bazar natalício açoriano.

 

Figura 5 – A Alma do Artesanato Açoriano: um mosaico da nossa identidade, onde a tradição se reinventa. Desde o quadro delicado em escamas de peixe (imagem A) e o design moderno da bijuteria arquitetónica (imagem B), até à herança histórica das peças em osso de baleia (imagem C). A harmonia entre a terra e o mar revela-se nos candeeiros de basalto e criptoméria (imagem D), na fé dos Registos do Sr. Santo Cristo (imagem E) e nos terços de basalto e de “lágrimas-de-Nossa-Senhora” (imagem F).

 

Figura 6 – Sabores da Época: a doçura das ilhas em destaque com os tradicionais licores artesanais prontos para  prova (Imagem A), acompanhados pela riqueza do mel e da doçaria regional que marcam o paladar do Natal açoriano (Imagens B e C).

 

No meio desta explosão de sons e materiais, o nosso stand, o da Azores Gems and Minerals, oferecia um contraste crucial, a solidez silenciosa da Vulcanologia e Mineralogia, enquadrada pela Gemologia. Éramos o espaço onde o frenesim da feira dava lugar à contemplação e a história da Terra ganhava protagonismo.

O Inédito e o Altar da Gemologia

A nossa participação foi uma aposta deliberada em dois mundos que definem a nossa identidade. De um lado, tínhamos o altar da Ciência Ígnea, a bancada onde se iniciava a conversa sobre a origem e a formação vulcânica das nossas gemas, um pilar de Mineralogia rigorosa.

 

            Figura 7 –  Onde a ciência encontra a arte. O nosso “altar” de Gemologia na Expo Açores. Da força bruta dos      xenólitos e da escória negra, ao brilho inédito das olivinas e augitas facetadas. Um percurso visual que mostra que       a nossa terra é feita de tesouros, (Imagens A, B, C e D).

 

            Figura 8  – Mais do que um stand, um espaço de partilha. Orgulhamo-nos de expor as referências científicas e          publicações que a nossa equipa participou, valorizando o património geológico e mineralógico açoriano. Apenas           de origem nos Açores, a nossa promessa é a autenticidade. Das olivinas e augitas às obsidianas e xenólitos, os nossos cartazes informativos guiam o visitante através das matérias-primas únicas que transformamos em peças de coleção ou em peças de bijuteria.

 

A nossa bijuteria surgia como o elo final desta corrente. Diferente da joalharia convencional, as nossas peças são criadas para exaltar a essência da terra. Nelas, as areias de minerais e os minerais em bruto são os protagonistas. Ao levar uma destas peças, o visitante não levava apenas um adereço, mas um fragmento autêntico da génese vulcânica dos Açores, preservado na sua forma mais genuína e tátil.

 

Figura 9 – No nosso stand, a mineralogia transformou-se em adorno pessoal através de colares e brincos de gipsita das Furnas, colares com espirais que guardam o poder das rochas vulcânicas. Com um destaque especial para a delicadeza das olivinas e suas variedades peridotos a constituir grãos de areia,  esta linha de bijuteria encapsula cristais e grãos in natura, permitindo       que a beleza natural e a energia vulcânica dos Açores sejam sentidas no dia a dia. Ao escolher uma destas peças, o visitante não levava apenas um adereço, mas um fragmento autêntico dos constituintes formativos da geologia das nossas ilhas, preservada na sua      forma mais genuína e revelando, em cada detalhe, a alma mineral dos Açores.

 

Figura 10 – Exemplo de uma peça de bijuteria Azores Gems and Minerals: medalhão com grãos de olivinas  in natura.

 

Mas o que realmente provocou o assombro foi a apresentação das olivinas e suas variedades peridotos facetados como gemas preciosas. Esta visão da gema açoriana transformada, brilhando com o fogo da lapidação, era algo nunca antes visto na região. A surpresa nas caras das pessoas ao ver a augita e o peridoto de Açores transformados em peças de alta beleza e qualidade. Foi a prova de que a nossa Gemologia estava a revelar um potencial inédito.

            

              Figura 11Fragmentos de olivina tipo peridoto in natura, de Açores, com a cor característica e a transparência do mineral        antes do processo de lapidação (Imagem A); série desses peridotos facetados, revelando o potencial     destas gemas para a alta joalharia (Imagem B); o brilho e a morfologia da augita lapidada – a transformação de     um cristal vulcânico numa peça de precisão e elegância (Imagem C e D); augita em bruto (in natura) – amostras do mineral     tal como são recolhidas na natureza (Imagem E).

 

Para os entusiastas e curiosos, tínhamos também as amostras “cruas” que contam a história mais profunda das nossas ilhas, os raros xenólitos, verdadeiros tesouros geológicos, provenientes, provavelmente do manto terrestre, e que chegaram à superfície; a leveza da pedra-pomes e a singularidade da obsidiana como vidro vulcânico. Para além das peças de alta lapidação, a nossa coleção de bijuteria com minerais em bruto desempenhou um papel fundamental. Nestas criações, utilizamos desde os fragmentos e grãos no seu estado natural, geralmente como areias finas e grossas, criteriosamente selecionadas, algumas densamente carregadas de olivinas, outras onde a augita é rainha, revelando a riqueza mineral que se esconde nos detalhes da nossa região costeira, formada por exposição de rochas vulcânicas e depósitos de areia e cascalhos, resultantes da atividade erosiva e sedimentar do mar.

 

 

            Figura 12  – Possível xenólito, proveniente certamente do manto terrestre, trazido das profundezas pelo magma ascendente e extravasado (imagem A); escória vulcânica: a “pedra que escolhe a pessoa”, com as suas características tonalidades azul-anil, (imagem B);   augita: revelando o brilho e a elegância de um mineral vulcânico (imagem C); olivinas em basalto: o contraste vibrante do verde das olivinas (peridoto) na matriz da rocha basáltica cinza-negra (imagem D); pedra-pomes: a leveza  e porosidade de um material moldado pelo gás e pelo fogo (imagem E); obsidiana: o vidro vulcânico natural, tipo obsidiana, com  a sua textura vítrea e camadas de arrefecimento rápido (imagem F).

 

Pensando nos turistas e colecionadores que nos visitam em busca de conhecimento, disponibilizámos frascos de areias constituídas com minerais, tais como, olivinas e augita,  e caixas com fragmentos de rochas para coleção.

            Figura 13 – Frascos com amostras de areias: o brilho concentrado das olivinas e outros minerais em diferentes granulações, preservando a pureza da nossa geologia em frascos de vidro (imagem A); exemplo de caixas de coleção. O exemplar máximo do      nosso “souvenir vulcânico”. Nestas caixas, as olivinas e outros minerais são devidamente certificados e protegidos,     elevando a rocha açoriana ao estatuto de peça de coleção, onde a natureza em seu estado natural encontra o rigor da nossa marca  (imagem B).

 

Estes pequenos tesouros geológicos permitem levar um pedaço genuíno do arquipélago para casa, de forma organizada e educativa. Todas estas peças são o motor que viabiliza a nossa missão.

A Glorificação do Quotidiano e o Encontro Místico

A verdadeira magia residia na forma como apresentávamos o que é quotidiano, contrastando com a festividade geral. Colocámos um foco artístico no que é pisado diariamente na rua, a escória vulcânica e o basalto com olivinas. Num elegante prato giratório, estas rochas foram elevadas, ganhando uma beleza e uma importância que a maioria dos açorianos nunca lhes tinha conferido. Era um ato de glorificação da matéria-prima local.

 

            Figura 14 – A Beleza que se Revela. Foi aqui que os visitantes pararam para redescobrir a beleza das nossas ilhas,     vendo o brilho das olivinas e as iridescências das escórias de uma forma nunca antes sentida. Este prato não foi  apenas uma base de exposição, mas o local de encontros místicos, onde a paixão por um pedaço de terra (rocha) vulcânica  se sobrepôs ao valor material, celebrando a ligação profunda entre a geologia e a alma humana.

 

Muitas vezes, a ligação tornava-se profunda, quase mística. Recordo-me de um episódio que resumiu a nossa filosofia. Um casal de turistas demorou-se junto ao prato giratório e a atenção da senhora fixou-se numa peça de escória vulcânica negra com subtis manchas de um azul quase anil. Foi, visivelmente, “amor à primeira vista”. A peça não estava para venda, mas para exposição. Ao sermos questionados sobre o preço, avancei com um valor simbólico que, para o seu companheiro, não pareceu razoável. Seguiram em frente.

Ao vê-los dar a volta ao pavilhão, e já no lado oposto do nosso stand, a emoção daquele olhar não me saiu da memória. Corri atrás deles e, com um sorriso, entreguei a escória à senhora, sussurrando apenas: “Na vida, nem tudo é dinheiro”. A expressão de espanto e gratidão dela ao receber a pedra confirmou a nossa máxima: a pedra é que escolhe a pessoa e não a pessoa que escolhe a pedra.

Conclusão: O Legado Brilhante

Após cinco dias de um vibrante programa de cânticos e atividades, o balanço para a Azores Gems and Minerals é que, claro, a ciência da Vulcanologia e da Mineralogia pode e deve ser transformada em arte. Conseguimos posicionar as nossas peças como alguns dos presentes mais diferenciadores da Expo Açores 2025, objetos que não só celebram a nossa criatividade, mas também o poder vulcânico e milenar da nossa terra.

Saímos desta Expo com a certeza de que consolidámos o nosso lugar como a primeira e única empresa nos Açores a fundir a Mineralogia com a arte da lapidação. Somos pioneiros em transformar o que a terra nos dá em gemas de padrão internacional, mantendo a alma vulcânica intacta em cada faceta. Mais do que comercializar minerais, abrimos um caminho inédito na nossa região, o da Gemologia de excelência com identidade açoriana. Levámos a ciência para a Árvore de Natal e garantimos que a história dos Açores é contada e usada com orgulho.