11 – O CORONAVÍRUS E O COTIDIANO BRASILEIRO

Ano 7 (2020) – Número 1 Artigos

 10.31419/ISSN.2594-942X.v72020i1a11UFK

 

 

Ubirajara Fernandes Kimmemgs (criação e texto)

Colaborador do GMGA e do Museu de Geociências, IG/UFPA*, e-mail: kimmemgs@gmail.com

Ilustrações de Marcus Melo Costa, e-mail: eu@marcusbadi.com

Designer do BOMGEAM

 

 

“Seu João” é um pacato, honrado e pacífico cidadão da classe média bem baixinha e esteio de uma típica família de qualquer bairro brasileiro. Funcionário público de carreira morava em casa de quintal financiada ainda nos tempos do BNH com sua esposa dona Clotilde, uma dona de casa tagarela, daquelas com pano de prato nos ombros e vassoura na mão. Com a saída dos filhos (todos formados graças a Deus) e a morte do sogro, seu João construiu, a pedido da esposa, uma casa de telhado meia-água de quarto, cozinha, banheiro e varandinha em parte do quintal para dona Filomena, sua sogra, uma afável e bondosa senhora, sua segunda mãe.

 

Todos os dias após cumprirem com as tarefas domésticas sentavam-se as duas senhoras ao cair da tarde à calçada a espera do seu João. Este, ao chegar, abraçava a esposa e a sogra, olhava para a casa onde se lia “lar doce lar” fazia o sinal da cruz e entravam os três com a feliz sensação de dever cumprido em mais um árduo dia de trabalho.

 

Um belo dia de sol em março de 2020, seu João para espanto das duas, chegou mais cedo.

 

Seu João (com um semblante retratando um misto de preocupação, indignação e dúvida) ¾ O chefe liberou todos os funcionários. O trânsito está um verdadeiro caos. Eu peguei carona.

Dona Clotilde (aos berros) – você pegou corona?

Dona Filomena que se embalava em uma cadeira desmaiou.

Seu João tentando explicar correu para acudi-la.

Dona Clotilde (aos berros) – fique longe da minha mãe e não chegue perto de mim. fique lá no fundo do quintal.

Seu João – Mas…

Dona Clotilde (aos berros) – Tire toda a roupa enquanto eu pego o álcool.

Dona Filomena recobrou os sentidos, mas, ao ver a cena, desmaiou de novo.

Dona Clotilde (sempre aos berros) – Coloque isso na cabeça cobrindo o nariz e a boca.

Seu João – Mas…

 

Com tanta algazarra, a dona da pensão ao lado subiu em uma cadeira para bisbilhotar. Diante do que vira, a vizinha desceu da cadeira, voltando-se para seus hóspedes.

 

Vizinha (sussurrando alto) – Gente, seu João está pelado com uma calcinha na cabeça e dona Clotilde está jogando álcool nele.

Hóspede  – Como ele está?

Vizinha (sussurrando alto) – Em pé.

Hóspede – Deixe o cara, vai passar.

Seu João (gritando) – clotiiildeeeee.

Hóspede – Não falei?!

Seu João (gritando) – Eu peguei carona. E a repartição fechou por tempo indeterminado por causa do corona.

Dona Clotilde (atordoada) – Meu Deus. Então vista logo a roupa.

Dona Filomena (recobrando os sentidos) – O que está acontecendo? Acho que tive um sonho.

Tudo esclarecido foram os três para frente da TV. As notícias eram assustadoras.

Dona Filomena (assustada) – É o fim do mundo. As profecias não enganam. Vou rezar.

Figura 1

 

Alguns dias depois…

Dona Clotilde (preocupada) – João, precisamos ficar atentos com a mamãe.

Seu João (preocupado) – É. Ela está no grupo de risco. Vou sair para comprar máscaras e álcool.

 

Seu João foi direto a uma loja de artigos de segurança.

Seu João – Bom dia. O senhor tem máscara respiratória?

Balconista – Acabou. Talvez o senhor encontre no supermercado na rua ao lado. Boa sorte.

Seu João – Obrigado.

 

Seu João, seguindo as orientações do vendedor, foi para a gôndola própria e encontrou tudo vazio. Pensou por uns segundos e desistiu. Quando se preparava para sair, o supermercado anunciou a pronta reposição do produto, momento em que o pobre homem viu uma enorme multidão correndo em sua direção.  Ao tentar voltar outra multidão corria pelo outro lado. Uma senhora que ia caindo perdeu a dentadura. Seu João quis ajudar, porém, a gôndola de absorventes desabou. Oportunistas aproveitavam a ocasião para roubar absorventes e similares. A bolsa de uma mulher se entrelaçou no pescoço de seu João. E para piorar o quadro houve queda de energia. Seu João com muito sacrifício conseguiu sair e chegar até a porta e em estado de choque tomou o rumo de casa.

Dona Clotilde (aos berros) – joão nepomuceno de quem é esta bolsa?

Dona Clotilde (chorosa) – Você saiu para comprar máscaras e álcool e chega todo amassado e com uma bolsa de mulher no pescoço.

Dona Clotilde (irritada) – quem é essa sirigaita?

Dona Clotilde (irritada, chorosa e aos berros) – E esses absorventes?

Dona Filomena (pacífica) – Calma minha filha, acabei de ver na TV. Houve uma grande confusão no supermercado e o João caiu, foi pisoteado e acabou por salvar uma senhora que perdeu a dentadura do marido que precisava de reparos. Quanto os absorventes, podemos usá-los como máscara.

 

Figura 2

 

 

 10.31419/ISSN.2594-942X.v72020i1a11UFK