01 – PAUL HENRY O`NEILL E A ERGONOMIA NO CASO ALCOA

Ano 7 (2020) – Número 1 Notícias

Milson Edmar da Silva Xavier

Geólogo e Eng. de Segurança do Trabalho; Colaborador do GMGA

(Grupo de Mineralogia e Geoquímica Aplicada) /CNPq

 e do Museu de Geociências do Instituto de Geociências/Universidade Federal do Pará.

 

Em 18.04.2020 morreu o economista Paul O`Neill.  Ele ocupou o cargo de secretário do Tesouro dos Estados Unidos, durante dois anos, no governo George W. Bush (2001-2002). Para a Indústria Mineral, entretanto, cabe ressaltar seus atributos como diretor executivo e CEO de uma das maiores empresas de fundição de alumínio do Planeta (ALCOA), fabricante desde o metal das latas de coca-cola, aos rebites da indústria aeroespacial, além de intensa atividade mineral, mundo afora.

Anterior ao período na esfera governamental (1987-2000), foi contratado e chamado para dar respostas aos acionistas da Alcoa Corporation, frente a debandada de clientes e lucros, em função de políticas insensatas da gestão anterior na condução da empresa.  Surpreendeu, negativamente, os investidores ao propor como medida prioritária a Segurança do Trabalho. Estes, esperavam anúncio de medidas para alavancar os lucros e reduzir custos usando estratégias e comportamentos com tendência da época como “sinergia”, “proação”, “coopetição”, etc.  Apresenta dados sobre acidentes de trabalho e suas perdas de dias trabalhados, sobre o processo produtivo com metais a elevadíssimas temperaturas, com máquinas que podem arrancar o braço do trabalhador, mas que, apesar disso, o histórico da empresa, em segurança do trabalho, ainda estava abaixo da média da mão de obra americana. Não se contentando, sugere a busca pelo “acidente zero” para levar a empresa ao topo das empresas mais segura nos Estados Unidos. Por isso foi taxado, por alguns investidores, de integrante dos movimentos hippies dos anos 60 (muitas drogas) e, por outros, de hippie maluco.

Em sua proposta, frente aos acionistas e colaboradores, não estava empregada somente a velha máxima de comprometimento do CEO da organização, em que ao longo do tempo o discurso se esvai, desaparece ou evapora. Ele usa da Ergonomia sem fazer referência a esse ramo do conhecimento. Quando ele usa da Psicologia do Trabalho, um dos pilares da Ergonomia, como ferramenta para mudar os hábitos dentro da organização, o faz com o objetivo ergonômico de adaptar o trabalho ao homem. O seu conceito de hábito angular na Segurança foi usado com maestria, ou seja, identificação de uma prioridade central com poder de alavancar os demais hábitos da organização, com a transformação de processos, sistemas, procedimentos, pessoas e máquinas.  A opção pela Segurança como hábito angular o faz criar um sistema de avaliação através de um indicador de segurança, o que leva a empresa a alcançar, em sua gestão, um índice vinte vezes menor quando comparado ao índice de acidentes nos Estados Unidos, mesmo com as condições perigosas, insalubres e penosas de sua atividade. Esses números se equivalem aos poucos acidentes que ocorrem em um escritório de contabilidade ou mesmo no serviço público.

Portanto, a Ergonomia continua a estudar o trabalho para transformá-lo.  Ela nasce sobre um tripé (Engenharia, Psicologia e Fisiologia) para dar respostas aos acidentes de trabalho ocorridos com os próprios combatentes dos países aliados, durante a Segunda Guerra Mundial.  Neste sentido, na Alcoa tem-se uma perfeita aplicação dos ensinamentos ergonômicos por Paul O’Neill quando, utilizando-se dos conceitos de Organização do Trabalho, preconizados pela Ergonomia francófona, mas fiel, em parte, a Taylor, Ford e Toyota, respectivamente, Taylorismo, Fordismo e Toyotismo, implementa uma série de medidas para transformar a empresa, sem que precisasse mudar as pessoas, pois sabia que não teria o poder para mandar as pessoas mudarem, apesar de CEO da organização. Mas sabia que as pessoas poderiam reagir às mudanças de hábitos principais que têm o poder de transformar as organizações, numa reação em cadeia. Para tanto, passou a agir nos hábitos da Segurança, mais especificamente na Ergonomia Organizacional ou Psicológica. Isto implica em diferenciar o que é tarefa e o que é atividade. Este foi o ponto de partida de O’Neill na Alcoa. Ele precisava saber qual o jeito que as pessoas trabalhavam e se comunicavam na empresa. A isto chamamos atividade, ou seja, trabalho real. Já a tarefa é o trabalho prescrito, normatizado, do manual de procedimento, que pode ser escrito ou verbalizado. O gestor que o antecedeu exacerbou no ordenamento, a ponto de os trabalhadores queimarem bonecos parecidos com diretores.

O’Neill visitou todas as instalações da empresa nos Estados Unidos e em outros 31 países. Seu foco foi na investigação de acidente. Queria saber o porquê de o acidente ter ocorrido.  Para tanto, precisava estudar o processo de produção para achar a causa e não partir do pressuposto de que o trabalhador era o culpado. Juntou a isso os conceitos de qualidade e processos eficientes, a fim de se conseguir a execução do trabalho certo e mais seguro, tudo baseado no plano do hábito angular. Determinou que qualquer acidente fosse comunicado a ele, no prazo máximo de 24 horas, e já com a lista de medidas a serem executadas, para evitar novas ocorrências. Determinou ainda que as promoções seriam dadas àqueles que cumprissem os planos apresentados. É o argumento do incentivo ao trabalho pregado desde Taylor. O’Neill, então, alia os ensinamentos da escola francófona aos da escola anglo-saxônica na área ergonômica.

Por isso, Ergonomia não é só postura, como muitos associam. Ergonomia é segurança, conforto e eficiência. E o sucesso da reformulação da Alcoa, por O’Neill, se traduz também no aspecto econômico.

O crescimento da empresa se deu com as ações valorizando cinco vezes ao final de sua gestão, os dividendos foram distribuídos, ao longo de sua gestão, alcançando o mesmo valor do capital aplicado pelo investidor, o faturamento líquido anual foi de cinco vezes o do início da gestão e o aumento de capitalização no mercado foi de 27 bilhões de dólares ao longo da gestão.  Todo esse cenário se deu com a empresa alcançando também o topo das empresas mais seguras do Estados Unidos. Portanto, um bastião da segurança ou um lugar mais seguro da terra?

Esses são os fatores que levam uma empresa, como a Alcoa Corporation, tratá-lo como ícone até os dias atuais (22.04.2020), que na expressão do seu atual CEO diz:

“Paul O’Neill foi um líder icônico da Alcoa, que sempre colocou segurança e valores acima de tudo. Ele nos desafiou que um ambiente de trabalho seguro não só é possível, mas esperado. Seu legado de cuidar das pessoas vive na Alcoa, juntamente com seu forte compromisso com a integridade e excelência que impulsiona nossa empresa hoje. Em nome de todos os alcoanos ao redor do mundo, enviamos nossas mais profundas condolências à sua família e a todos que o amavam e respeitavam.” – Roy Harvey, Presidente e CEO da Alcoa Corporation. (https://www.linkedin.com/company/alcoa/?originalSubdomain=br. Acesso em 22.04.2020)

 

REFERÊNCIAS

Barrichelo, F. 2019. Hábitos da Alcoa e a excelência operacional. www.barrichelo.com.br Acesso em 22.04.2020.

https://www.linkedin.com/company/alcoa/?originalSubdomain=br. Acesso em 22.04.2020.