07 – GÊNESIS II: UM OLHAR SOBRE OLHARES

Ano 6 (2019) – Número 1 Artigos

 10.31419/ISSN.2594-942X.v62019i1a7AMSB

 

 

Genesis II: a look about lights

 

Anderson Martins de Souza Braz

Geosciences Institute, Federal Rural University of Amazon (UFRA), Capanema, State Pará, Brazil, abrazgeo@gmail.com; anderson.braz@ufra.edu.br

 

ABSTRACT

This is a text about the memories aboard the boat Genesis II through the Tapajós´s River-Lake, Pará, Brazil. The life on board emphasizes our feelings and trigger existentialist reflections. The complexity of themes such as gratitude, humility and injustice oppose natural beauties. I returned with many doubts, but with a clean soul and renewed hope.

Keywords: Journey, Boat, Emotions, Brazilian Amazon, Landscapes.

 

INTRODUÇÃO (A JORNADA)

“No princípio era uma ideia…
…e embarcamos rumo às águas do Tapajós,
um lago dos sonhos num rio de possibilidades.”
Pitoresca 1:1

 

Partimos do aeroporto internacional de Belém-Pará (Val-de-Cans) no dia 13 de outubro de 2018 às 21:35. Chegamos no aeroporto internacional Maestro Wilson Fonseca, na cidade de Santarém-Pará às 22:55 e seguimos diretamente para o que seria a nossa moradia pelos próximos dias, a embarcação Gênesis II (Figura 1). Com um roteiro preestabelecido de navegarmos pela margem esquerda do Tapajós, no sentido de Santarém – Fordlândia (distrito do município de Aveiro-Pará), e retornarmos pela margem oposta. Apresento, em seguida, as impressões de um “mocoronauta”1 sobre o convívio confinado em um barco durante a viagem pitoresca pelo Tapajós. Contudo, este relato não obedecerá necessariamente à ordem cronológica dos fatos, e sim um olhar sobre cada um dos participantes2.

1Mocoronauta (mocorongo + nauta): mocorongo – os indivíduos da região do Rio Tapajós, além daqueles que nasceram na cidade de Santarém, no estado do Pará; nauta – navegador/navegante.
2Os participantes não foram identificados por seus nomes para preservar o anonimato.

 

Figura 1. O barco Gênesis II (Fonte: o autor).

 

O Gênesis II é uma embarcação familiar, sendo a sua tripulação composta por três pessoas: o Capitão, o Contramestre e o Marinheiro. O Capitão era um homem de baixa estatura, enérgico e com um sorriso sincero, de quem está cheio de gratidão, transparecendo uma vitória pessoal de quem já passou por agruras e privações. A experiência de vida do Capitão lhe confere atributos peculiares como a de exercer as funções de cozinheiro, mecânico e serviços gerais, concomitantes à sua posição de comando. Porém o seu paladar não era um dos melhores, o que tornava as refeições, às vezes, muito desagradáveis. O Contramestre era o irmão do Capitão, um homem de poucas palavras, reservado e muito observador. A sua expressão contemplativa todos os dias na proa do barco, com um semblante de interrogação em uma espécie de diálogo com a própria consciência, parecia buscar um propósito diante de um futuro incerto. O Marinheiro era o filho do Capitão, um jovem militar da Marinha do Brasil que aproveitou de suas férias para ajudar o pai e, consequentemente, adquirir prática sobre navegação. Apresentava as mesmas características de muitos jovens, como um sonhador, otimista e um pouco impulsivo, ávido por velocidade e aventuras.

 

Os aventureiros pitorescos, além do autor, eram: o Professor, a Senhora, a Rosa, o Carioca, o Químico, o Cearense, o Revolucionário e as jovens Dory e Lita. Na manhã do dia 14 de outubro de 2018, após um peculiar toque de alvorada, que se tornaria comum nas manhãs seguintes, zarpamos com os primeiros raios do sol. Todos com largos sorrisos, na mais extrema expressão de alegria e felicidade. Os tons rosa, alaranjado e avermelhado marcaram o céu no início desta manhã, contrastando com a visão do movimentado porto de grãos e suas enormes embarcações graneleiras, instigaram novas reflexões sobre o desenvolvimento da região Amazônica (Figura 2). Éolo3 soprou os seus melhores ventos, e este momento, eu não conseguiria descrever, apenas pensamentos em trânsito e paz de espírito. Após algumas horas navegando, das belas águas azul-esverdeadas, ao longe sugiram bancos de areia e nas margens: barrancos, falésias, afloramentos rochosos e uma vegetação exuberante. A partir deste momento, destaca-se o idealizador e personagem mais “Bateano”4 da viagem, o Professor.

 

3Éolo na mitologia grega é o deus dos ventos.
4Relativo a Henry Walter Bates, cuja a obra “Um Naturalista no Rio Amazonas” serviu como fonte para está viagem.

 

Figura 2. Amanhecer em Santarém-Pará, com a vista do porto de grãos ao fundo. (Fonte: o autor).

 

O Professor destoa do senso comum, convergindo o saber prático com o acadêmico/científico, com surpreendente ubiquidade intelectual. Resiliente e pouco afetado pelos anos. Talvez ele tenha feito algum tipo de acordo com Cronos5. Durante a viagem, muitos dos personagens de livros da minha juventude pareciam personificados nas ações dos participantes. Sendo que o Professor conseguia sintetizar o caráter letrado de Humphrey van Weyden com a rigidez de Wolf Larsen, ambos da mesma obra de Jack London: O Lobo do Mar. Entretanto, o aprendizado contínuo desta convivência é muito superior e de difícil transcrição. Analogicamente, as suas histórias e experiências de vida são tão curiosas quanto as descobertas sobre a pedra Hypatia encontrada no Egito em 19966 (Belyanin et al., 2018). A Senhora, uma pessoa solícita e muito calma, transparecia maturidade. Ela sempre tentava contornar os dissabores salinos ou apimentados das refeições preparadas pelo Capitão. E juntamente com a Rosa, por serem mais experientes, serviam de apoio para as jovens Dory e Lita.

 

5Cronos na mitologia grega é um titã deus do tempo.
6Pedra alienígena encontrada no Egito (https://www.eurekalert.org/pub_releases/2018-01/uoj-ehs010918.php).

 

Uma de nossas primeiras paradas em um banco de areia, observamos pequenos quartzos coloridos e também espículas de um organismo séssil, o espongiário de água doce denominado “cauixi” (Figura 3). Veríamos muito mais destas espículas nos próximos dias. Por enquanto, o preparo físico do grupo ainda não tinha sido posto à prova. Navegávamos em média a 12km/h e após algumas horas, chegamos em Ater-do-Chão (± 40 km da cidade de Santarém). Almoçamos e seguimos sob o sol a pico para fazermos a trilha da Serra Piroca (Figuras 4 e 5). Inicialmente, devido a maior parte do percurso ser plano, subestimou-se o esforço necessário para o trecho final, extremamente íngreme e mesmo subindo em ziguezague, muito desgastante. É neste contexto que a garra e a alegria da pitoresca Rosa começaram a se destacar.

 

Figura 3. Primeira parada da viagem: (a) banco de areia. (Fonte: equipe pitoresca).

 

Figura 3. Primeira parada da viagem: (b) grãos de quartzo coloridos. (Fonte: equipe pitoresca).

 

Figura 3. Primeira parada da viagem: (c) o espongiário cauixi. (Fonte: equipe pitoresca).

 

A Rosa, o Carioca e o Revolucionário eram as pessoas com quem eu mais puxava brincadeiras. Contudo, ela foi quem mais enfrentou meus desafios, não se negou a entrar nas águas com arraias. E jamais desistiu das longas e ensolaradas caminhadas. Prestativa com o grupo, cativante, destemida e como a Jeanne Baret7, capaz de circu-navegar o globo. O Carioca me trazia boas recordações da minha infância, lembrava bastante o oceanógrafo documentarista e inventor francês, Jacques Cousteau. E, além da semelhança na sonoridade e clareza quando estava comentando sobre algum assunto, também apresentava o mesmo gosto por inventar coisas práticas. O Químico era o único dos pitorescos residente em Santarém, com uma tranquilidade inabalável, como numa personificação do princípio de Le Chatelier8. O Cearense tinha uma das dietas mais exóticas que eu já vi, a base de pipocas industrializadas. Ligeiro nas caminhadas e muito organizado com tudo, uma excelente pessoa. Os horários escaldantes e luminosos de nossas aventuras foram um pouco difíceis para ele. As diversas tentativas do Cearense em se proteger da exposição ao sol, instigava a minha imaginação durante os longos percursos a pé, onde tentava recordar os nomes de todos os folclores e mitos com seres heliófobos9.

 

7É reconhecida como a primeira mulher a circu-navegar o globo.
8O princípio diz que um sistema em equilíbrio quando perturbado tende a ajustar-se de modo a remover a perturbação e restabelecer o equilíbrio.
9Aquele que tem aversão à luz solar.

 

Figura 4. Rocha recoberta por vestígios de macrófita de água doce (Fonte: o autor).

 

Figura 5. A Serra Piroca. (Fonte: o autor).

 

O Revolucionário nos contava muitas histórias pessoais, mas os finais sempre eram trágicos. Acho que o regular insucesso destas narrativas acabou, tornando-as mais cômicas que o normal. A sua visão romântica sobre a política era um tanto anacrônica pela a sua idade. Mas, uma pessoa bastante animada e muito companheira, demos muitas risadas com ele. A jovem Dory apresentava a mesma utopia10 que o Revolucionário, porém mais exacerbada. Ela me fez pensar sobre a personagem de um livro que li alguns meses antes desta viagem, a Elza Fernandes11 (assassinada aos dezesseis anos por justiçamento12). Já a jovem Lita transbordava as inquietudes próprias da idade, muito parecida com o Marinheiro, filho do Capitão. Contudo, tanto a Dory quanto a Lita ainda estão em formação e suas convicções brownianas13 poderão sedimentar com o tempo.

A rota que fizemos na Floresta Nacional do Tapajós, extensa e com muitas paradas para observarmos toda a sua exuberância foi realmente fascinante (Figuras 6 e 7). Continuando a viagem, na cidade de Aveiro, próximo às margens do Tapajós, coletamos amostras de terra preta de índio (horizonte superficial do solo de origem antropogênica) (Figura 8), e também encontramos a espécie de formiga descrita por Henry Walter Bates em 1863, neste mesmo local (Bates, 1979). A nossa parada seguinte foi em Fordlândia e vendo as suas ruínas, lembrei subitamente de Macondo da obra de Gabriel García Márquez14: Cem Anos de Solidão. A Fordlândia, assim como o povoado ficcional de Macondo, teve o seu surgimento, a ascensão e a queda. Construções, equipamentos (Figura 9), fragmentos cerâmicos arqueológicos e suas memórias (Figura 10), tudo isso fadado às profundezas do rio Lete15. Os atuais habitantes de Fordlândia, pouco ou nada conhecem sobre a sua história. Apenas algumas anciãs ainda transmitem pela tradição oral o encantamento e o saudosismo daquele período, como um itan16 que é passado oralmente de geração a geração. Ouvindo atentamente o relato de uma destas anciãs, ficamos sabendo de um casarão na outra margem do Tapajós, em frente a Fordlândia. Os relatos sobre o período de escravidão e os folclores que giram em torno deste casarão tornaram nossa visita, a este local, algo muito especial (Figura 11).

 

10É a ideia de civilização ideal, fantástica, imaginária.
11Codinome de Elvira Cupello Colônio, militante do Partido Comunista Brasileiro, enforcada em 1936, pela suspeita seus pares.
12É a prática de julgamento e eliminação de pessoas consideradas traidoras de movimentos revolucionários.
13Relativo ao movimento browniano – comportamento aleatório das partículas suspensas num líquido.
14Nobel de Literatura de 1982.
15Um dos rios da mitologia grega que literalmente significa o Esquecimento.
16Itan é o termo em iorubá para o conjunto de todas as tradições transmitidas oralmente.

 

Figura 6. Floresta Nacional do Tapajós: Cipó conhecido como escada-de-jabuti (Bauhinia rutilans Spruce ex Benth). (Fonte: o autor).

 

Figura 7. Floresta Nacional do Tapajós: O apuí, mata-pau ou figueira-brava (Ficus nymphaeifolia Mill.). (Fonte: o autor).

 

Iniciamos a viagem de volta para Santarém e fizemos uma parada em Boim (distrito de Santarém), onde encontramos uma construção fantástica, porém abandonada, um seminário religioso de outrora que fora doado para servir como escola, mas que sofreu com a politicagem e o descaso. Chegando em Santarém, presenciamos a beleza do encontro das águas do Tapajós com o Amazonas. Em seguida, desembarcamos e fomos em dois carros para a “Vila Mensalista”, na cidade de Belterra-Pará. A “Vila Mensalista” é a rua onde ficam diversas casas modelo, onde residiam os funcionários da Companhia Ford. Retornamos para Santarém e finalizamos a viagem com um passeio noturno pela orla, enquanto aguardávamos o horário do voo para Belém. Partimos do aeroporto internacional Maestro Wilson Fonseca, na cidade de Santarém-Pará no dia 21 de outubro de 2018 às 03:50. Chegamos no aeroporto internacional de Belém-Pará (Val-de-Cans) às 05:10. No desembarque, uma atmosfera densa e lacônica17 comum do cansaço acumulado e dos desgastes característicos da intensa interação do convívio em confinamento.

 

17que se exprime por poucas palavras; conciso, sucinto, breve.

 

Figura 8. Tradagem de solo, com horizonte antropogênico denominado terra-preta-de-índio, na cidade de Aveiro-Pará. (Fonte: equipe pitoresca).

 

Figura 9. As ruínas de Fordlândia: (a) construção. (Fonte: o autor).

 

Figura 9. As ruínas de Fordlândia: (b) maquinário. (Fonte: o autor).

 

Ao chegar em minha residência e refletindo sobre as pessoas que conheci nestes lugares de difícil acesso, fiquei um pouco desapontado. Pois pareciam esperar pela morte, como discípulos de Santo Afonso Maria de Ligório18 (Ligório, 2017). Ao anoitecer, na tranquilidade do meu quarto, olhei em volta e desapercebidamente comecei a desfazer as malas. Peguei uma das embalagens que trouxe com amostras e ao abrir eram pequenos e coloridos quartzos, misturados com um pouco de areia daquela primeira parada da viagem. Friccionando entre os dedos e observando o cintilar, ocorreu-me o diálogo do filme de 1964 (As Sete Faces do Dr. Lao), Dr. Lao justificando-se para o garotinho Mike que pede para trabalhar no circo:

“Sempre que você pega um punhado de areia,
e não vê areia, mas sim um mistério,
uma maravilha em suas mãos.
Toda vez que você para e pensa:
Estou vivo, e estar vivo é fantástico!
Sempre que algo assim acontece,
você é parte do Circo do Dr. Lao.”

 

18Autor da obra: Preparação para a morte – Considerações sobre as verdades eternas.

 

E no grande circo da vida, podemos nos identificar com os anseios do garotinho Mike em querer fazer parte do espetáculo. Ou apenas, ficarmos na coxia (fora de cena) e assim como o “respeitável público”, espectadores atônitos diante de feras, malabaristas e palhaços. Mas, acredito que no final, o que realmente todos desejam é a mágica de ser feliz e que o show tenha valido a pena.

 

Figura 10. Fragmentos cerâmicos arqueológicos descartados em pilha de entulhos por produtores de mudas. (Fonte: o autor).

 

Figura 11. Casarão histórico em Urucurituba, em frente a Fordlândia. (a) vista frontal do casarão. (Fonte: o autor).

 

Figura 11. Casarão histórico em Urucurituba, em frente a Fordlândia. (b) destaque para a porta com a soleira afundada (origem de muitos folclores). (Fonte: o autor).

 

Figura 11. Casarão histórico em Urucurituba, em frente a Fordlândia. (c) cadeado antigo encontrado durante a visita. (Fonte: o autor).

 

CONCLUSÕES

A viagem proporcionou experiências enriquecedoras de cunho acadêmico, sensorial e cultural. Alguns conceitos pré-estabelecidos foram confrontados com a realidade, desnudando o precipício entre o discurso e a prática. O modelo de implantação de grandes projetos na região, associado à miopia do poder público, tem se mostrado um fracasso. A memória patrimonial regional está desaparecendo, o que torna o registro desta jornada algo ainda muito mais importante para a preservação da história.

 

Agradecimentos

Ao idealizador da viagem pitoresca pelo rio-lago Tapajós, o “Professor” e a todos os demais aventureiros pitorescos. A tripulação do barco Gênesis II: o Capitão, o Contramestre e o Marinheiro (In memoriam).

 

REFERÊNCIAS

Bates, H. W. (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. Tradução Regina Régis Junqueira, apresentação Mário Guimarães Ferri. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1979.

Belyanin, G. A., Kramers, J. D., Andreoli, M. A., Greco, F., Gucsik, A., Makhubela, T. V., Przybylowicz, W.J., Wiedenbeck, M. 2018. Petrography of the carbonaceous, diamond-bearing stone “Hypatia” from southwest Egypt: A contribution to the debate on its origin. Geochimica et Cosmochimica Acta, 223: 462-492.

Ligório, A. Preparação para a morte. Ed. Nebli, primeira edição. 2017. 370p.

 

 

 10.31419/ISSN.2594-942X.v62019i1a7AMSB