03 – AMAZÔNIA: DO ELDORADO AO LATEX NO RIO-LAGO TAPAJÓS

Ano 6 (2019) – Número 1 Artigos

 10.31419/ISSN.2594-942X.v62019i1a3UFK

 

 

Amazon: from eldorado to latex along the river-lake Tapajos

 

Ubirajara Fernandes Kimmemgs (colaborador do GMGA-IG/UFPA),
kimmemgs@gmail.com

 

ABSTRACT

This text is a narrative based on historical facts and my impressions of the trip made to Fordlandia in October 2018. In a simple language, I try to report important facts that marked the latex history of our country, especially the amazon region.

Keywords: Novo Mundo, Henry Ford, Fordlândia, Belterra.

 

A ORIGEM

Depois que portugueses e espanhóis informaram a descoberta do novo mundo, o velho mundo rejuvenesceu. Os descobridores, deslumbrados com as novas terras, se encantavam com tudo que viam. Com as cortes européias assoladas pelo frenesi das descobertas, Portugal e Espanha rapidamente resolvem se antecipar e dividir o planeta em dois, e para que não houvesse briga, decidiu-se por sorteio que à Espanha caberia a divisão e Portugal escolheria o lado que mais lhe agradasse. Era tanta terra que o acordo foi assinado sem maiores problemas. Pronto, a partir de agora passa a valer o Tratado de Tordesilhas, (Figuras. 1 e 2).

Os espanhóis, que ficaram com o lado oeste do novo mundo, saíram um pouco mais cedo em busca de qualquer coisa e ao chegarem, encontraram nativos bem receptivos, alegres, festivos, vivendo em grande harmonia. Alguns dos líderes que recebera os espanhóis usavam adornos de ouro e pedras preciosas, outros preferiam a prata, o que poderia ser um indicativo de poder hierárquico ou econômico. Seja lá o que for, Colombo, que não prestara conta de sua última viagem e estava em débito com a coroa espanhola, vendo toda aquela riqueza arregala os olhos e inicia um cordial e mal-intencionada aproximação. Como dois gagos que desconhecem o idioma um do outro, o diálogo começou a ficar meio tenso. Na tentativa de amenizar a situação, os acuados nativos dão indícios de que teria muito mais riqueza floresta adentro.

De olho no que viam, os espanhóis começam a procurar o que não viam. A imaginação dos navegadores transpassa a fronteira dos mares agora navegados, contaminando as mentes curiosas do lado de lá com as fantásticas estórias criadas do lado de cá.

 

Figura 1 – Tratado de Tordesilhas. A) Acordo assinado entre o Reino de Portugal e a Coroa de Castela, Espanha, em 7 de junho de 1494, no povoado castelhano de Tordesilhas, Espanha, estabelecia limites do “Novo Mundo”. O documento encontra-se no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Portugal e Archivo General de Índias, Espanha. B) Imagem meramente ilustrativa da partilha. Wikipedia, 2019. Disponível em:
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Tratado_de_Tordesilhas#/media/File:Treaty_of_Tordesillas.jpg>. Acesso em 03 mar. 2019.

 

Figura 2 – A) Marco do Tratado de Tordesilhas Ponto Norte localizado na Praça Pedro II em Belém, Pará, a única capital por onde passava a linha que limitava os domínios de Portugal e Espanha, teve as peças de bronze subtraídas. B) Ponto Sul, localizado na cidade de Laguna, Santa Catarina, mostra uma régua sobre uma esfera de granito simbolizando a partilha. Disponível em: Google maps <https://www.google.com/maps/@-1.4553798,-48.5039272,3a,75y,70.66h,96.53t/data=!3m6!1e1!3m4!1sGEbw7yBUqPRE_h1KHmSxsQ!2e0!7i13312!8i6656>. Acesso em 03 mar. 2019.

 

As viagens de Colombo ao novo mundo foram bem movimentadas. No retorno da primeira das quatro viagens, o navegador foi recebido com todas as pompas e honrarias. Estava no apogeu de sua glória. Apresentou aos reis da Espanha Fernando e Isabel, alguns índios sequestrados, papagaios, peças de ouro e artefatos produzidos pelos índios do novo mundo, causando forte impressão além de sublimar os contos fantasiados pela tripulação. Colombo retorna da segunda viagem, cansado e doente. Na terceira, o representante da Coroa nas viagens exploratórias, mandou prendê-lo por não conseguir controlar conflitos entre nativos e europeus. Na viagem de volta, Colombo foi entregue acorrentado aos reis. Seis semanas depois de seu retorno, o navegador, admirado pela rainha Isabel, não só foi solto como a ele fora concedido habeas corpus, alvará de soltura e mais uma viagem, mostrando que o nosso hoje vem de muito ontem.

Entre idas e vindas, alguns aventureiros foram ficando, afinal, as riquezas encontradas somadas àquelas fantasiadas certamente se sobrepunham aos riscos das viagens de volta.

Quão mais demorada era a permanência de uns e a viagem de volta de outros, maiores eram as distorções dos contos. “Do outro lado daquelas montanhas, existe um grande rio que conduz os navegadores a uma cidade dourada, o verdadeiro paraíso”, fantasiavam os ávidos exploradores.

Portugal, por sua vez, lança velas ao mar e segue em busca do ouvi dizer pelo lado leste da nova terra. Cabral, escondendo o jogo, informara à tripulação que iria para as Índias, entretanto, rumou para sudoeste. Em seguida, vencido pelo cansaço, passou o comando da esquadra para Sancho de Tovar, este por sua vez, ao perceber que o caminho para as Índias não era aquele, tratou de voltar e pegar o rumo certo. Ao acordar, Cabral reassume o comando e corrige a rota em direção ao novo mundo. O ziguezague da esquadra deixou os gajos patrícios sem norte e acabaram se perdendo no meio do vasto oceano. Dias depois viram sinais de terra. Gaivotas sobrevoando a esquadra, algumas folhas flutuando, no futuro distante seriam sacos plásticos, garrafas PET. Finalmente, ouvem-se um ecoante grito – terra a vista – chegaram.

Ao aportarem também não viram a cidade dourada descrita nos contos, que a essa altura era construída com puro ouro maciço, entretanto, o que viram deixara atônita toda a tripulação. Homens e mulheres desavergonhadamente nus. Não diferente, os despidos também viam com perplexidade os recém-chegados com todo exagero das vestimentas. Enquanto o comandante Nicolau Coelho se aproximava, o escrivão Pero Vaz de Caminha inicia uma narrativa dos acontecimentos para conhecimento do Rei Dom Manoel, destacando que “… ao chegar o batel à boca do rio, já ali havia dezoito ou vinte homens. Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas” (Trecho da carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal) (Figura. 3).

 

Figura 3 – A) Carta de Pero Vaz de Caminha enviada ao rei Dom Manuel, escrita em forma de diário, é considerado o primeiro texto literário brasileiro e o primeiro documento da história do Brasil. A certidão de nascimento do Brasil, com 29 folhas manuscritas, encontra-se no Arquivo Nacional Torre do Tombo, Portugal. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Carta_de_Pero_Vaz_de_Caminha>. Acesso em 03 de março de 2019. B) Desembarque de Cabral em Porto Seguro. Óleo sobre tela de Oscar Pereira da Silva, 1904. Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Desembarque_de_Pedro_%C3%81lvares_Cabral_em_Porto_Seguro.jpg>. Acesso em 03 mar. 2019.

 

Figura 4 – A) Primeira missa no Brasil. Óleo sobre tela. Obra mais importante do catarinense Victor Meirelles de Lima, pintado em 1860. Acervo do Museu Nacional de Belas Artes. Disponível em:< http://www.museus.gov.br/tag/primeira-missa/ > acesso em 03 de mar de 2019. B) Índios Apiaká. Óleo sobre tela, 1828 do francês Hercules Florence. Disponível em: <https://www.bbm.usp.br/node/149>. Acesso em 03 mar. 2019.

 

Bem, aqui pode não ser o “Eldorado” dos espanhóis, porém, tem tudo para ser o paraíso dos portugueses posto que as vergonhas das senhoras também estavam expostas. Como alguém pode viver com as vergonhas expostas com tantos insetos a picar? Indagavam alguns.

Dúvidas e espantos a parte, uma coisa era fato, o paraíso fora descrito respeitosamente de forma nua e crua em carta ao rei, logo, era a mais pura verdade e assim sendo, claramente poderia concluir-se que, se no início da floresta fica o lascivo paraíso, a cidade de ouro floresta adentro existe e se existe encontrá-la seria uma questão de tempo.

Em agosto de 1501, uma expedição formada por três naus capitaneadas por Gaspar de Lemos, Américo Vespúcio e André Gonçalves, em obediência ao rei português, inicia o reconhecimento e confecção do mapa do desconhecido litoral e de quebra, por questões humanitárias, fariam um cadastramento dos nativos desnudos.

Em meio à turbulência movida pelo prosaico alvoroço europeu, aventureiros, exploradores e naturalistas, arvoram-se mata adentro do novo mundo listando a fauna, flora e afloramentos. A matéria prima utilizada na construção da suposta cidade dourada começava assim ser encontrada, alimentando ilusões com boatos de paraíso perdido instigando cada vez mais o velho continente.

Enquanto isso, o francês François Rabelais, que foi frade franciscano e depois beneditino, além de médico, escritor e revolucionário ao tomar conhecimento do comportamento e costumes dos povos desnudos do novo mundo, expôs seu pensamento no livro “La Vie de Gargantua et Pantagruel”, (Rabelais, 1534), se manifestando contra a rigidez da Igreja Católica, a cavalaria francesa, as convenções medievais e extinguia o pecado original e juízo final. E como na dialética socrática contrapondo-se a argumentos contrários, foi contra a ele próprio. Sua fé passou a ser a natureza e por meio dos personagens gigantes Gargantua e Pantagruel, dariam uma nova dimensão ao renascentismo, em outras palavras, virou natureba (embora tenha se tornado popular na França, o livro foi proibido pela Université Paris-Sorbonne por seu conteúdo obsceno).

Com muito a ser explorado, as missões jesuíticas começam a marcar território e fundam em 1549, a primeira escola do Brasil, em Salvador e cinco anos mais tarde, a segunda, em São Paulo. Para auxiliar nos ensinamentos trouxeram de Portugal, sete órfãos moçoilos, perdidos, todos ladrões e maus. Eles foram adestrados, doutrinados e perdoados pela fé católica, a fim de facilitar o ensino dos meninos indígenas. Em troca da educação e catequese dos silvícolas, os religiosos abençoam o vil metal que, uma vez abençoado, passa a ter livre acesso à coroa real e clerical.

Na culinária, os portugueses, na tentativa de melhorar o sabor da estranha comida regional, desembarcam o sal, ervas-finas e especiarias trazidas das Índias. Nossas índias, por sua vez, dão um toque a mais na culinária tupiniquim. A caça e a pesca ganham ares e sabores aristocráticos.

Neste mesmo período, o padre Samuel Fritz nomeia o frei carmelita Manoel da Esperança para receber as missões jesuíticas espanholas do Solimões, período no qual o frei observa a manipulação do látex pelos índios Kambebas na fabricação de utensílios como sapatos, garrafas, bolsas, adornos e protetores genitais. Os índios Kambebas viviam nas margens do rio Solimões entre os rios Coari e Purus, conhecidos como os Omágua das Ilhas (Maciel, 2007).

Contudo, a manipulação do látex no novo mundo não era nenhuma novidade. Com o material extraído de várias plantas tropicais, a civilização Teotihuacán (300 a.C. a 600 d.C.) produzia uma bola utilizada em um tipo de jogo que se espalhou por uma vasta região, chegando até na Amazônia, (Figura.5) (Anghiera,1530). Em 1615, frei Juan de Torquemada, descreveu como os astecas faziam incisões no caule da seringueira e extraía a seiva usada na fabricação de garrafas e solados de calçado, (Navarro, 2008).

 

Figura 5 – A) Campo usado para a prática do tlatchi, um tipo de jogo praticado nas civilizações pré-colombianas mesoamericanas. B) Ilustração de uma partida de tlatchi. Fonte: <http://blogspotmequieromorireducacionfisica.blogspot.com/2015/09/prehistoria.html>. Acesso em 03 mar. 2019.

 

Anos mais tarde, a ciência começa a se interessar pela borracha. O cientista francês, Charles Marie de La Condamine, revela para a Europa os utensílios de látex fabricados pelos Kambebas, além disso, os chamados “portugueses da Amazônia” passaram a fabricar seringas sem êmbolos deste material, fruto do aprendizado com os nativos (La Condamine, 1743).

Estas informações trouxeram novo agito no velho mundo. O conhecimento somado a necessidade deu origem as galochas, adornos, sondas, bolas, tecidos para cintos, suspensórios, borrachas de apagar, ligas, lonas e sacos, os primeiros produtos de borracha a entrarem no mercado europeu e norte-americano. Com a primeira versão da revolução industrial se preparando para decolar, a periferia da cidade de Belém do Pará, naquela época conhecida por Pará, concentrava uma crescente indústria de derivados de borracha para exportação. Era o início do ciclo da borracha.

No século seguinte, a ciência atravessa o oceano e começa a dar as caras no Brasil. Em 1808, Dom João VI funda a Faculdade de Medicina da Bahia (Figura.6), de onde saíram ilustres como o médico Juliano Moreira, primeiro negro diplomado, referência internacional em psicanálise, e Rita Lobato Velho Lopes, a primeira médica brasileira diplomada no Brasil. Em um ato que talvez para ela representasse uma grande conquista, jogou o chapéu para cima, gesto hoje repetido por formandos mundo afora.

As transformações que estavam por vir na parte sul do mapa do Brasil cortariam o cordão umbilical entre Portugal e a colônia tupiniquim, e nada da cidade dourada. Em 1815 o Brasil passaria a ter seu próprio reinado, só que unido a Portugal e Algarve. Anos mais tarde D. Pedro I é chamado a Portugal onde seria destituído do cargo. O imperador chuta o pau da barraca resolve ficar e proclamar a independência do Brasil.

A desordem no lado tupiniquim é imensa. D. Pedro I viaja para Portugal e em 1834 morre por lá. Por aqui, o padre Diogo Antônio Feijó assume a regência da desafinada orquestra no auge da Guerra dos Cabanos de Pernambuco e Alagoas, a Cabanada. E quando termina a Cabanada, começa outra Guerra dos Cabanos, desta feita conhecida como Cabanagem, na Província do Grão Pará. No Sul, a Guerra dos Farrapos, no Maranhão, a Balaiada ou Guerra dos Bem-te-vis e na Bahia, a Sabinada. Com tanta confusão, o antes padre agora regente Feijó, resolve deixar de reger e voltar a rezar passando a batuta para Araújo Lima.

Enquanto por aqui ninguém se entende, do outro lado do equador, em 1839, Charles Goodyear, um inventor americano, amplia o uso da borracha, a partir da vulcanização, dando-lhe maior durabilidade e elasticidade. Isto ocorreu no auge da segunda revolução industrial. Afinal, o mundo precisava urgente da borracha para isolante elétrico, pneus, tubos, mangueiras, correias e mais uma infinidade de produtos a serem degustados pela faminta indústria. Além disso, com a estranha culinária garantindo-lhes bons pratos, a Europa mudou-se para a Amazônia. A cultura do velho mundo atravessou o oceano e instalou-se entre os tupiniquins. No esplendor da belle époque amazônica, teatros, escolas, bibliotecas, ruas largas e iluminação, brotavam como nunca visto antes e, é claro, impostos, impositores e impostores.

 

Figura 6 – A) Faculdade de Medicina da Bahia, fundada por D. João VI em 1808. A primeira faculdade do Brasil. B) Juliano Moreira ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia em 1886, dois anos antes da assinatura da Lei Áurea. Diplomou-se aos 18 anos de idade. C) Rita Lobato Velho Lopes, em 1887, foi a primeira médica a se formar em terras brasileiras. D) Estátuas de médicos ilustres de autoria do escultor italiano Pasquale De Chirico, ornam os corredores da faculdade e espelham no ambiente um ar de sobriedade. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Faculdade_de_Medicina_da_Bahia_da_Universidade_Federal_da_Bahia>. Acesso em 3 mar. 2019.

 

Pelos rios amazônicos passavam, em 1906, o equivalente a 40% da balança comercial do Brasil. Manaus foi a terceira cidade brasileira a ter bondes elétricos (depois de Rio de Janeiro e Salvador), construiu o maior porto flutuante do mundo, recordista em movimentação de embarcações. Além de ter o maior consumo de diamantes do planeta e um custo de vida que chegava a ser quatro vezes mais alto que Londres e Nova York.

A nova capital do Brasil no Rio de Janeiro, em constantes conflitos político, assiste ao desenfreado crescimento das capitais Manaus, Amazonas e Belém, Pará. O governo, ainda meio tonto com a República recém instalada, não poderia deixar de participar da festa, criando impostos e sobretaxas que aumentavam o custo de tudo. Os comerciantes que ganhavam comissões relativas, aumentavam o percentual de venda, pagavam os impostos aos impositores, parte dos lucros aos impostores e saiam para um “happy hour” de mãos dadas com a ilusão (Figura.7), criando um círculo vicioso e a primeira bolha econômica brasileira. O produto dos seringais chegou a ter um ágio de 800% (Frank & Musacchio, 2002). A preocupante euforia no mercado era geral, entre 1880 e 1913, o mundo dos negócios lícitos passava pela Amazônia, os ilícitos pelo “borracho duto”. Indigestão geral. Pode ter sido a maniçoba.

 

Figura 7 – Imagem meramente ilustrativa da fábula “A cenoura e o burro”.

 

O PRODÍGIO AMERICANO

O Rio Tapajós começa na confluência dos rios Teles Pires e São Manuel, na tríplice divisa dos estados do Pará, Mato Grosso e Amazonas, exibindo corredeiras, remansos, praias de notável beleza e muito peixe, ao longo de aproximadamente 843 km até sua foz no Rio Amazonas. Os últimos 280 km, entre São Luís do Tapajós e Santarém no Pará, o rio exibe uma imensidão de águas claras, limpas e calmas, convidativas para um relaxante mergulho a 25o C, motivo mais do que suficiente para que europeus de diferentes calibres, intenções e opiniões, se aventurassem no ainda jovem país, trazendo seus costumes e sabedorias acumuladas por milênios.

Um desses aventureiros foi o inglês Henry Alexander Wickhann, que se estabelecera em Santarém, no Pará, identificando-se como emissário da Royal Botanic Gardens, uma tradicional instituição, localizada no distrito de Kew, Inglaterra, dedicada ao estudo de botânica. Seguindo os passos do meio brasileiro e meio português Francisco de Melo Palheta, que nos trouxera o café, o genuíno inglês recebeu o título de Cavalheiro da Rainha, concedido pela Rainha Vitória da Inglaterra, pela dignidade de subtrair 70.000 sementes da Hevea brasiliensis da região de Boim no Vale do Tapajós em 1876. Assim, o agora Sir Henry Alexander Wickhann recebera de tabela a honra de ser oficialmente o primeiro bio-pirata da história. Tornou-se uma lenda (Figura.8).

Usando como tempero o charme característico dos latinos, a cobiçada Hevea brasiliensis, orgulhosa por ter sido oportunamente roubada, acabou por aceitar o desafio de ir morar longe, bem longe, enquanto o ladrão, para não perder o “status quo”, exibe vaidosamente o título de Sir, afinal, todo bom ladrão tem a obrigação, o dever e o direito impostos pelo difícil oficio de roubar, de fazê-lo com sapiência e dignidade, afinal, um título estaria em jogo. O título seria o de maior produtor de borracha do mundo. As sementes roubadas da Hevea brasiliensis germinaram vaidosa e orgulhosamente nos jardins da coroa britânica, foram transplantadas na Malásia e 37 anos depois começaram a produzir a ruína da economia da Amazônia brasileira.

A má digestão preocupou os maus gestores, o quadro tinha que ser revertido. Talvez a principiante Coca Cola, uma bebida feita a base do extrato do orobó ou café de Sudão (cola nitida), fruto da bio-pirataria trazida da África para a nossa América, venha provocar eructação e combata a dispepsia ajudando a limpar geral.

Passada a indigestão, o governo tenta recuperar o prejuízo e estreita as relações com os ianques e em acordo diplomático, cria a “American Rubber Mission”, composta por representantes do governo brasileiro e norte-americano (Cardoso e Heizer 2012) (Figura.9).

 

Figura 8 – Sir Henry Alexander Wickhan o inglês que se tornou o “pai” da biopirataria. (Revista Época, 02/07/2009).

 

Um sopão temperado por pesquisadores de diversas formações e origens, cujo objetivo era traçar um perfil do clima, flora, fauna, geologia, geografia, condições sanitárias, sociais e, porque não, buscar ajuda para encontrar a misteriosa cidade dourada na inóspita região que a esta altura, era habitada e protegida por fantasmagóricos moradores dos rios e da floresta, como mapinguari, cobra grande, matintaperera, curupira, sem falar do boto, que só dá o bote na hora certa.

Enquanto isso, do outro lado da linha equinocial Henry Ford, um jovem e hábil mecânico americano do Norte com 29 anos de idade, de inteligência acima da média, achava muito elevado o preço das carruagens sem cavalos (horseless carriage). Seu sonho era criar um carro mais barato, simples, sem luxo e produzi-lo em grande número e com custo suficientemente baixo para que todo americano pudesse comprá-lo. O engenhoso americano trabalhou durante três anos até conseguir construir um motor de baixíssimo custo (Figura. 10). Agora bastava encaixá-lo entre duas bicicletas, batizá-lo de quadriciclo e pronto. Simples, bom e barato (Figura. 11). Henry Ford depois de vender este feito a um dentista construiu e vendeu outro, mais outros e mais vários outros. Sem perder seu objetivo de vista, criou o veículo Ford T, criou uma fábrica, a primeira linha de montagem e mais tarde os engarrafamentos (15 milhões de unidades vendidas entre 1908 e 1927). (Morales, 2002; Bueno, 2012).

 

Figura 9 – A) Geólogo norte-americano Curtis Marbut coleta amostras do solo. B) Relatório da Comissão Brasileira junto a Missão Oficial Norte-Americana de Estudos do Vale do Amazonas. Rio de Janeiro: Oficinas Tipográficas do Serviço de Informações do Ministério da Agricultura, 1924. (Biblioteca da CPRM – Serviço Geológico do Brasil).

 

Em 1920, Henry Ford inaugurou a primeira fábrica de automóveis do Brasil (Figura. 12). Neste período recebeu o diplomata José Custódio Alves de Lima, adido comercial brasileiro em Michigan, que expõe ao empresário, a intenção do governo brasileiro em investir na Amazônia. Influenciado pelo relatório assinado pelo botânico Carl D. LaRue da University of Michigan, um dos participantes da American Rubber Mission (ou Missão americana, como ficou conhecida) destacando a miséria, o trabalho escravo na extração da borracha e as condições de vida quase primitiva da população, Ford propõe a criação de um projeto social que chamou de Projeto Humanitário e Civilizatório Auto Sustentável na Amazônia que visava atender a população e suprir as necessidades da Ford Motor Co (Cardoso, 2012).

 

Figura 10 – Primeiro motor construído por Henry Ford em 1893 funcionou pela primeira vez preso na pia da cozinha de sua casa, dividindo espaço com sua esposa que temperava um peru na mesma bancada (The Henry Ford Museum).

 

Enquanto a versão 3.0 da revolução industrial alvora logo ali acima das nossas cabeças, cifras resplandecem a olhos vistos em olhos oportunos. Henry Ford, ao divulgar seu novo projeto, a parte sul do mutante Brasil entrou em polvorosa. Com tudo acontecendo muito rápido, o adido comercial de Washington no Rio de Janeiro, William Schurz, se alia ao brasileiro Jorge Dumont Villares, que tinha negócios e vivia na Amazônia e a Maurice Greite, um inglês conhecido como oportunista com trânsito livre nas altas cúpulas de governo. Greite apresenta Jorge D. Villares ao prefeito de Belém, Antônio Castro, e ao governador do Pará, Dionísio Bentes que declarou conceder terras gratuitamente e livre de impostos a quem desejasse plantar seringueira no Pará.

“O nobre e excelentíssimo governador terá logo em breve diante dos seus olhos a maior plantação de seringueiras do mundo”, garantiu Villares. Assim, em 1926, o governador concedeu-lhes 1 milhão de hectares na região do Vale do Tapajós. O adido comercial Schurz, astuciosamente oferece as terras a Harvey Firestone, fabricante e fornecedor de pneus para a Ford Motor Company. Henry Ford, focado em seu projeto social e preocupado com a oferta feita a Firestone, envia a Belém os prepostos O.Z. Ide e W.L. Reeves Blakeley, seus funcionários na fábrica em Dearborn, condado de Wayne, Michigan, além do botânico Carl D. LaRue, para que pesquisassem o melhor local para a implantação do Projeto.

 

Figura 11 – A) Henry Ford ainda jovem montou uma pequena oficina em seu quintal, aonde construiu seu primeiro carro. B) Quadriciclo de Ford, como ficou conhecido. (The Henry Ford Museum).

 

Figura 12– A) Fábrica da Ford inaugurada em 1921 no bairro do Bom Retiro em São Paulo. B) A fábrica recebia visitantes para acompanhar a linha de montagem. (Museu do Transporte Público de São Paulo)

 

O vilão Jorge D.Villares oferece US$18 mil para que os dois funcionários o ajudassem a fechar um acordo com o empresário. Missão dada, missão executada, dias depois Villares oferecia a Ford as terras que tinha em mãos.

O tucupi ideológico e diplomático começou a esquentar. Prosopopeicos e inflamados discursos eram prenuncio de “$ FARTURA”. A proposta matapi tupiniquim incluía um contrato em que, para ser bem transparente, o próprio Villares seria o executor do projeto e concederia à empresa o direito de extrair diamante, ouro, petróleo, madeira, construir hidrelétricas importar e exportar qualquer coisa e inclusive se houvesse interesse até plantar seringueiras tudo “free”, sem impostos. No alvorecer de 1927, Villares vende por US$125 mil as terras a ele concedidas pelo governo a custo zero para a Ford Motor Co.

Religioso e de reputação ilibada, o obstinado Henry Ford se volta para a realização do seu projeto social na Amazônia. Iniciava-se ali o vislumbre de um sonho e a realização de um pesadelo. Em 1928 foi criada a Companhia Ford Industrial do Brasil – CFIB. Inicia-se a preparação da área para as futuras instalações do empreendimento e em dezembro do mesmo ano chegam à comunidade de Boa Vista, margem direita do Rio Tapajós, os navios Lake Ormoc e Lake Farge, trazendo parte dos maquinários, estruturas metálicas, madeiras, telhas e etc. Fordlândia começou a nascer, a Companhia Ford Industrial do Brasil – CFIB é uma realidade. No primeiro ano de existência empregou mais de 1.500 trabalhadores. A antiga Vila Boa Vista passou a ser conhecida como Fordlândia (Figura. 13).

O processo de verticalização da produção introduzido nas fabricas da Ford, trazido para o Brasil, iniciaria com a plantação de três mil hectares por ano até que as primeiras seringueiras começassem a produzir. No ápice da produção do látex, o empreendimento proporcionaria a criação de 7.300 empregos direto nas áreas de agronomia, engenharia, saúde, botânica, educação entre outras, em variadas especializações.

Fordlândia ganhou luz elétrica, telefone, água tratada e encanada, tratamento de esgoto, hospital, porto, escolas, casas, restaurante, cinema, igreja e cidadania disponibilizada a todos os moradores da região e ainda aeroporto. A primeira pista de pouso em solo firme na região foi construída em Belterra. Aos empregados, além dos direitos trabalhistas garantidos por força de lei, a empresa fornecia alimentação, salário acima da média nacional, aulas de educação e condicionamento físico, aulas de canto e campeonatos esportivos.

A oferta de empregos e as notícias sobre Fordlândia eram destaque em todos os jornais do país e mundo afora. O turismo deu um salto. Foi criada uma rota marítima ligando Rio de Janeiro a Fordlândia. Era como viajar para Michigan (USA) sem sair do Brasil, os turistas queriam conhecer as instalações do empreendimento e saber como uma pequena vila no interior do nada consegue, do nada ter a terceira maior movimentação financeira do norte do país, em curtíssimo espaço de tempo.

 

Figura 13 –Vila Operária de Fordlândia em fase final de construção em 1930 (Sena, 2008).

 

Alegria geral. Bom salário, boa casa, filhos na escola, médicos a disposição em ótimo hospital, futebol é claro, porém, só se esqueceu de avisar ao pessoal o chamado “choque cultural” do tipo:

– Mas e domingo?
– Igreja, almoço com a família e biblioteca ou coral na igreja.
– Cachacinha?
– Confiscada. Dá briga.
– Briga dá “si num tumá”.

Além disso, começaram a surgir alguns problemas. O terreno muito acidentado não era adequado para a plantação de seringais. Os sindicatos combatidos com rigor em Michigan pelo próprio Henry Ford chegam a Fordlândia e começam a cadastrar os trabalhadores. O Rio Tapajós não era navegável por navios de maior calado por 6 meses. A produção vai encalhar.

Isso não vai dar certo. “Michigan, we have a problem”.

Não, não é um problema, são vários problemas.

A região prosperava e a colônia de fungos também. Enquanto os botânicos da Cia Ford e os mediadores brasileiros e americanos se preocupavam em sugar o empresário, o mal das folhas, causado pelo Microcyclusulei, sugava as seringueiras.

– Alguém viu o Blakeley e o Vilares?
– Foram passar o carnaval no Rio de Janeiro.
– But it’s july.
– Aqui é assim. Até chegar lá demora.

A Companhia Ford Industrial do Brasil adoeceu.

Na tentativa de salvar o projeto a Ford Motor Co é induzida a investir no município vizinho de Belterra onde, em 1938, empregou 1.200 trabalhadores e em 1942 a CFIB não desmatou nem plantou nada. O número total de trabalhadores da empresa cai para 2.180. Surgem as primeiras evidências de desvios de dinheiro, polarização política, influência de sindicalistas, sindicalizados e as primeiras insatisfações dos trabalhadores dando origem a revolução “quebra panelas”.

Após 18 anos de sua criação, o projeto fracassou. Segundo o historiador americano Greg Grandin, Fordlândia foi o fruto de uma grande “conspiração” com a participação de vários atores. Um grande esquema de corrupção e estelionato envolvendo políticos, diplomatas americanos e brasileiros, prepostos da Ford Motor Co, além de funcionários do alto escalão da Companhia Ford Industrial do Brasil – CFIB. O fato, que viria à tona anos depois e provocaria um escândalo nacional e internacional conhecido como a “conspiração amazônica”, selou a participação do empresário e seu projeto humanitário na Amazônia e de quebra, manchando a reputação de Ford no Brasil (Grandin, 2010).

A Companhia vendeu as terras e benfeitorias ao Governo Brasileiro pelo valor simbólico de 250 mil dólares. O Decreto Lei 8.440 de 24 de dezembro de 1945 estabeleceu as normas para a operação que seria efetivada pelo Banco de Crédito da Borracha S.A., atual Banco da Amazônia S.A. (Basa). Esse era o valor devido a seus trabalhadores com indenizações de acordo com as leis ora vigentes. Segundo estimativas, a Companhia Ford investiu mais de 20 milhões de dólares nas duas tentativas de produzir o látex no Pará (Dean, 1989).

Segundo Cristovam Sena, Engenheiro florestal da Emater, Pará, diretor do Instituto Cultural Boanerges Sena, Santarém, Pará “pelo valor simbólico de 250.000 dólares, o Governo Federal recebeu seis escolas (quatro em Belterra e duas em Fordlândia); dois hospitais (um em Fordlândia e um em Belterra); patrulhas sanitárias; captação, tratamento e distribuição de água na então vila de Belterra e vila de Fordlândia; usinas de força; mais de 70 quilômetros de estradas bem conservadas; dois portos; galeria de águas pluviais; estação de rádio e telefonia; duas mil casas para trabalhadores; trinta galpões; centros de análise de doenças e autópsias; duas unidades de beneficiamento de látex; vilas de casas para a administração; departamento de pesquisa e análise de solo. Além de mais de 5 milhões de seringueiras plantadas, 1,9 milhões em Fordlândia e 3,2 milhões em Belterra (Sena, 2008).

Em 2018, o pouco ou quase nada que ainda está de pé corre o risco de desabar. Por dezoito anos a belíssima região tapajônica foi coberta por um manto de disciplina, educação, civismo, cidadania e otimismo sem precedentes, relatado em uníssono por mentes lacrimejantes dos últimos sobreviventes que usufruíram das benesses de Fordlândia. “No tempo dos americanos era bom, tínhamos hospital, o médico ia até a casa do doente, dentista, remédio, escola, tudo de graça. Eu tenho saudade daquele tempo. Certa manhã, ao acordar, observei que dormia sobre estrelas cintilantes, uma perfumada bruma de colorido suave entrava pela janela inundando o ambiente trazendo uma grande paz. Agora eu não tenho paz para dormir, por isso não sonho mais. Acabou o futuro. A cidade dourada enferrujou. Se alguém precisar de médico ou hospital tem que ir para Santarém. É longe, muitos morrem pelo caminho” relata uma moradora de 88 anos da Vila de Fordlândia, que preferiu não se identificar.

Os primeiros e únicos hospitais dos municípios de Aveiro e Belterra não mais existem. O hospital de Fordlândia foi o maior da região norte do Brasil, primeiro hospital a realizar um transplante de pele no país, foi desativado e encontra-se em ruínas sem condições mínimas de recuperação. O hospital de Belterra, por sua vez, desativado em 1992, foi consumido por um incêndio no ano de 2005 (Figuras. 14 e 15).

Final mais digno teve o Hospital São José inaugurado em 1930. Foi idealizado por Dom Amando Bahlmann, financiado por Henry Ford e construído pelo frei Rogério Voges. O primeiro hospital de Santarém cumpriu sua missão até 1942, ocasião em que município passou a contar com um hospital maior. Em 1943, o hospital financiado por Ford passa a abrigar o Ginásio Dom Amando Bahlmann, administrado por Dom Anselmo Pietrulla, padre franciscano da Província de Santo Antônio (Recife/PE) até dezembro de 1951, data em que a instituição passa para a categoria colegial, com a denominação Colégio Dom Amando, dirigido por religiosos da Congregação de Santa Cruz (Richard Grejczyk, Paul Schaefer, Genard Greene e Jayme Walter). O Colégio Dom Amando, ou simplesmente CDA, mantém a tradição de ser a melhor instituição de ensino da região oeste do Pará.

Segundo o senso realizado em 2016 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, o município de Aveiro, onde está situada Fordlândia, tem 15.849 habitantes dos quais 12.428 (78,42%) vivem abaixo da linha da pobreza e apenas 748 pessoas têm ocupação formal. O quadro presente em nada se assemelha ao passado. O governo federal delegou ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN a responsabilidade de iniciar um processo de tombamento do patrimônio visando a criação de escolas profissionalizantes, e incentivo do turismo na região, entretanto, processo de tombamento iniciado no passado (final da década de 1980), continua parado no tempo.

 

Figura 14 – A) Hospital de Fordlândia em 1933 Disponível em: <https://www.fordlandia.com.br/fotosdefordlandia?lightbox=dataItem-ja41h2kc32>. B) Ruínas do hospital de Fordlândia em 2017. (Foto: Mácio Ferreira/ Agência Pará)

 

Figura 15 – Hospital de Belterra. A) Prédio desativado em 1992. B) Consumido pelo fogo em 2005. Disponível em: <http://belterradotapajos.blogspot.com/2010/11/hospital-henry-ford.html>. Acessado em 10 mar. 2019.

 

O histórico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN em pouco contribui para a preservação da história. No ano de 1988, o Instituto faz um simplório levantamento fotográfico e breve relatório sobre o que restou do empreendimento, divulgado em seu Boletim de número 45 de janeiro/fevereiro de 1989.

Vinte e dois anos depois, em sessão solene no dia 29 de junho de 2010, o IPHAN juntamente com a então governadora do estado do Pará, Ana J. Carepa assinam um termo de adesão de nove municípios paraenses ao PAC Cidades Históricas, um projeto financiado pelo governo federal. O acordo previu investimentos de R$575 milhões dos quais R$17 milhões seriam aplicados em Fordlândia e R$ 19 milhões em Belterra entre 2010 e 2013, assim distribuídos:

Principais ações em Aveiro (Fordlândia):

• Recuperação e adequação do Antigo Refeitório de Fordlândia para abrigar o Centro de Referência e Recepção de visitante; • Restauração e adequação da Escola Princesa Isabel; • Restauração e adequação da antiga Casa de Força em ginásio de esportes; • Recuperação e adequação da Antiga Serraria para o Centro de qualificação profissionalizante em Carpintaria e Marcenaria de Fordlândia; • Ações de preservação do patrimônio arqueológico na Vila de Pinhel; • Produção de documentário sobre o distrito de Fordlândia; • Criar e regulamentar leis e normatização especifica para proteção do patrimônio Arquitetônico e cultural para o Distrito de Fordlândia; • Produção de material didático e informativo sobre Fordlândia; • Restauração de antigo galpão de ferro e vidro para implantação de Mercado do Produtor; • Implantação de terminal fluvial; • Urbanização e tratamento paisagístico da orla; • Acessibilidade, Iluminação, pavimentação, sinalização urbana e turística.

Principais ações em Belterra:

• Implantação da Casa do Patrimônio; • Restauração e recuperação do antigo hotel da Companhia Ford, atual Secretaria de Educação; • Restauração de edificação para implantação do Memorial da Borracha; • Restauração da edificação da antiga Secretaria de Saúde para implantação de centro de documentação; • Pavimentação, drenagem e calçamento na área histórica de Belterra; • Criação do conselho municipal de proteção ao patrimônio cultural; • Promover estudos de arranjos produtivos locais; • Financiamento para restauração de imóveis privados; • Restauração das igrejas Católica e Batista; • Pavimentação, drenagem e calçamento na área histórica de Belterra; • Criação do conselho municipal de proteção ao patrimônio cultural; • Promover estudos de arranjos produtivos locais; • Financiamento para restauração de imóveis privados; • Restauração das igrejas Católica e Batista.

O Ministério Público Federal e Procuradoria da República de Santarém através do OFÍCIO/PRM/IAB Nº 1, de 09 de janeiro de 2015 recomenda ao IPHAN:

“a) que seja dada o máximo de celeridade na conclusão do Processo 1311-T-99 relativos ao Tombamento de Fordlândia. b) que, não podendo agilizar o procedimento recomendado, providencie a indicação de medidas concretas direcionadas à Prefeitura de Aveiro/PA para que se possa diminuir as perdas ocorridas na possível área a ser tombada, sob pena de se enquadrar o Prefeito daquele ente municipal, em conduta tipificada como ato de improbidade; c) que tomada as providências elencadas, encaminhe a esta Procuradoria da República relatório das medidas providenciadas”.

Em 01 de dezembro de 2015, o Ministério Público Federal por meio do inquérito Civil nº 1.23.002.000158/2012-51, promoveu uma ação civil pública contra o Instituto pelo descaso no trato com as edificações. Em maio de 2016, o processo 2273-72.2015.4.01.3908 torna réu o IPHAN e o município de Aveiro.

Desde o mais distante passado até os dias atuais, vemos muitos desentendimentos e pouco desenvolvimento. Como ontem, os órgãos federais, estaduais e municipais de hoje não se entendem e não sabem o que fazer com o que sobrou do empreendimento. A decisão de um passa a ser indecisão de outro e mais adiante retorna ao primeiro. O IPHAN, idealizador de um evento anual denominado “Balaio do Patrimônio”, cuidadosamente coloca o balaio no já citado burro da cenoura e inseriu o pobre animal na insana roda.

Estudos recentes sobre o comportamento dos muares despertaram grande interesse e fez acender uma luz amarela na questão da preferência dos quadrúpedes pela cenoura. A ciência quer algo que pudesse quebrar o vício do círculo. No primeiro momento a solução encontrada foi tirar a cenoura da frente de todos os burros. Perfeito, diminui a procura da cenoura, aumenta a oferta no mercado, o preço ao consumidor despenca, o excedente é exportado e de quebra melhora o resultado da balança comercial.

O problema foi transferido para os proprietários de burros, que precisarão dar uma ocupação digna para aqueles pobrezinhos. Com o álibi de não prejudicar a pauta de exportação, decidem mantê-los no cabresto mudando seus hábitos alimentares.

Passada a euforia mercantil, analistas mais cautelosos e conservadores, defendem que o mesmo poderá acontecer com a nova dieta dos muares e a ciranda econômico-financeira poderia influenciar as commodities agrícolas causando grandes prejuízos. Isto posto, resolvem propor uma solução radical. Olhar para o passado, investir na educação no presente e colher bons frutos no futuro.

E como não poderia deixar de ser, novas ideias, novas polêmicas. O que é o futuro? Será que no futuro o Brasil continuará a ser o país do futuro? Vamos ao passado para discutir o futuro no presente.

Quando Stefan Zweig escreveu seu conhecido livro “Brasil – País do futuro”, lançado em 1941 (Zweig, 1941), encheu de entusiasmo mentes esperançosas desse Brasil varonil, contagiando as gerações do então futuro. Estas gerações já chegaram ao passado, e o futuro ainda não deu as caras. É melhor deixar quieto.

Em tempos globais, aprimorados sabores misturados aos pátrios tupiniquins, montam pratos primorosos. Degustá-los sentados no chão do salão do pequeno barco Gênesis II no rio Tapajós ao som do vento e ao deslumbre do amanhecer e entardecer na cidade dourada (Figuras. 16 e 17), em nada difere dos banquetes servidos nos navios vindo do estrangeiro aportados em Manaus, Santarém ou Belém, em tempos de ontem, a não ser pelos degustadores dos tempos de hoje. Vamos almoçar?

– Vai un canard à l’orange ou um peixe no tucupi?
– Misturado? Tudo bem.
– Sai então um pato no tucupi.

Figura 16 – “A leste, do outro lado daquelas montahas, existe um grande rio que conduz os navegadores a uma cidade dourada, o verdadeiro paraíso” (Foto: Arquivo pessoal).

 

Figura 17 – “A oeste, do outro lado daquelas montanhas, existe um grande rio que conduz os navegadores a uma cidade dourada, o verdadeiro paraíso” (Foto: Arquivo pessoal).

 

Agradecimentos

Agradeço aos amigos do GMGA-IG-UFPA, na pessoa do amigo e incentivador, Prof. Marcondes, a oportunidade de conhecer Fordlândia em outubro de 2018. Uma fantástica aventura a bordo do Gênesis II. Obrigado, Capitão Ray, valeu. Não poderia deixar de agradecer, em memória, a Henry Ford, por ter tido boa vontade e acreditado que um dia seriamos uma grande nação. Espero que este dia chegue.

 

REFERÊNCIAS

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 10.31419/ISSN.2594-942X.v62019i1a3UFK